Quanto riso, oh quanta alegria…
No final da década de 1970 o carnaval de salão, com marchinhas, era grande diversão para os jovens paulistanos. São Paulo ainda não havia sido tomada pelos axés, abadás e micaretas, e o velho romantismo dos arlequins e colombinas resistia bravamente.
Um dos mais animados e tradicionais bailes da cidade acontecia – e ainda acontece – no salão do Clube Portuguesa de Desportos, ao lado da Marginal do Tietê.
Minha amiga Lu era a caçula de uma 'escadinha' de quatro irmãs, moradoras da Zona Norte. Todas moçoilas casadouras, louquinhas para arrumar namorado e o Carnaval era a ocasião perfeita para isso!
As meninas estavam animadíssimas. Passaram meses concebendo as fantasias, um modelo diferente para cada noite, todas iguaizinhas, formando o que se chamava de bloco.
Lu era a mais eufórica: ela afinal completara 14 anos, poderia freqüentar com as irmãs os bailes noturnos e encontrar rapazes mais interessantes que os adolescentes espinhentos das matinês.
As águas vão rolar… Chegaram as grandes noites.
Lá iam as meninas, horas de preparação, maquiagem, cabelo, cada detalhe das fantasias cuidadosamente ajeitado.
Quem sabe um pierrô apaixonado apareceria? Ou um pirata, sem perna de pau nem olho de vidro? Poderia até ser palhaço, jogador de futebol ou bermuda-e-camiseta-com-colar-de-havaiano, bastava ser bonitão!
Depois do 'aquecimento' que foi o baile da sexta-feira, a noite de sábado prometia. Hora de estrear uma das melhores roupas, a de 'dama-da-noite'. Com direito a espartilho, cinta-liga, meia arrastão, salto alto e muita maquiagem. Poderosas, os rapazes que se preparassem!
O traje parecia fazer sucesso. Muitos olharam, alguns tentaram dançar junto, parece que a mais velha já arranjara um par, Lu estava indecisa entre um loiro e um moreno… Chegou o intervalo. No meio do salão, as quatro irmãs se reunem para trocar impressões sobre os flertes.
De repente, a surpresa: a dupla fotógrafo-repórter do antigo Diário Popular, especializado na cobertura do carnaval paulistano, abordou o bloco.
– Nossa, vocês estão sen-sa-cio-nais! São o sucesso do salão! Permitem que tiremos uma foto para o Diário Popular?
As garotas se sentiram nas nuvens: era a consagração! A fama batia à sua porta. Já pensou a cara das vizinhas? Das colegas de escola? Daquele canalha do ex-namorado? Uma delas até já sonhava em ser descoberta pela TV.
Poses, cliques, flashes. O intervalo inteirinho consumido na grande reportagem, os copos de refrigerante esquecidos sobre qualquer mesa.
Mamãe eu quero, mamãe eu quero… A banda deu os primeiros acordes e elas voltaram a pular, mais felizes do que nunca. Mesmo que não arrumassem nenhuma companhia interessante, o carnaval já estava ganho!
– Quando sai a matéria?
– Na quarta-feira.
Segunda, aquela expectativa. Terça, mais que o cansaço, a ansiedade encharcava os confetes na pela das meninas.
– Ai, a matéria sai amanhã!
– Como será que fiquei na foto?
– Tomara que não apareça de olho fechado!!!!
Manhã de quarta. O céu mal tinha clareado, as mocinhas atormentaram o pai que fora buscá-las no clube para passar na banca de jornal antes de ir para casa. Na banca, o jornal quase rasga entre as oito mãos desesperadas, que amarrotavam as páginas na busca frenética.
– Onde está?
– Não estou achando!
– Ei, está aqui, na página central!
– Deixa eu ver! Deixa eu ver!
Então, o choque: na principal página da cobertura carnavalesca estava a foto de Lu e suas irmãs, todas iguais em seus espartilhos, formando um trenzinho.
E a legenda cruel, demolidora: Os canhões de Navarrone.
Lu nem ligou. Afinal, ela tinha conhecido um rapaz bem interessante na segunda-feira. As outras choraram de raiva por semanas, abaixando a cabeça cada vez que encontravam um conhecido.
Cinzas, somente cinzas em meu coração.
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