Cantareira

Eu era pequenino. O ano não sei, mas, provavelmente, foi lá por 1958, 59 e 60. Morávamos nas cercanias de uma parada da Estrada de Ferro Cantareira, a estação Gopoúva, três depois da estação Jaçanã. A região ainda era pouco habitada e suas vastas áreas desocupadas parecia um grande sertão que se prolongava pelas colinas cada vez mais íngremes até a Serra da Cantareira.

A metrópole estava nascendo. Eu, minha mãe e minha irmã, pelo menos uma vez a cada três meses, pegávamos o trem da Cantareira e vínhamos até "São Paulo". Era assim que se dizia: "Vamos a São Paulo", como se estivéssemos em uma cidade muito distante ou em outro Estado da Federação. Não era sem motivo, pois a viagem era bem demorada.

E lá ia o trem serpenteando, com sua Maria Fumaça cuspindo fagulhas, cinzas e muita fumaça. É verdade, a Cantareira daquele tempo ainda era a vapor. A máquina gemia para subir a imensa rampa que levava do Jaçanã até o espigão do Tucuruvi. Em seguida, para não desembestar do outro lado do espigão e conseguir parar na Parada Inglesa, os freios eram acionados.

As chuvaradas de fagulhas dos ferros das rodas em brasa nas descidas eram espetáculos à parte. O ponto final ficava na Rua da Cantareira, lugar aonde, invariavelmente, as crianças já chegavam um pouco sujinhas de fuligem e traquinagens. Íamos ao médico, ao dentista e a fazer compras. Após tudo feito tomávamos o último trem para voltar ao nosso povoado.

Digo "povoado" porque, na verdade, bairro ainda não era. O caminho de volta era feito quase todo à noite e, à medida que o trem se afastava da área mais densamente povoada, as luzes da futura metrópole iam rareando. O trem seguia trechos escuros e, vez ou outra, era possível ver algumas luzes nas cercanias. Uma aqui, outra mais ali, uma outra acolá…!

Todas com aquele amarelo pálido, aquela "cor amarela de antigamente", que é difícil descrever e que só quem viveu aquele tempo sabe como é! Esse mesmo amarelo pálido nos acompanhava desde a Estação Gopoúva até as proximidades de nossa casa, pelas lâmpadas da iluminação pública instaladas em uma estrada calçada com paralelepípedos que hoje é uma avenida irreconhecível.

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