A corda, o balde e o poço

Vila Nair no Sacomã no Ipiranga, anos 50. Um cortiço, onde moravam cerca de 20 famílias. Pobres, trabalhadores, e, sobretudo dignos. Lutavam para sobreviver e dar aos filhos esperança de se ter algo melhor. Um poço de 21 m, de profundidade "abastecia" a cozinha. O pote, o tanque de lavar roupas, e "banheiro", do qual minha família tinha o privilégio de ser "particular".

Outros eram "comunitários". O sarilho, um rolete de ferro, com uma trava, era a ferramenta para retirar água para os trabalhos diários das mães… Às vezes se formava uma pequena fila, aguardando a vez de se servir daquela engenhoca. As senhoras aproveitavam para atualizar as "fofocas" e comentar as novelas da "Rádio São Paulo", do autor Fernando Balerone.

Tanto uso… A corda aos poucos desfiava, e o balde caia no fundo do tal poço. Emendas, ganchos até que se conseguia recuperar tais ferramentas. "Vamos comprar nova corda, novo balde… vamos."
Daqueles que ali moravam, poucos tinham capital para financiar o investimento.

Até que alguém se aventurava a bancar. Normalmente era minha mãe.
Compra feita… Balde novo, corda nova… O rateio das despesas. Nem sempre bem aceito, mas no fim apesar das reclamações, tudo se ajeitava e a vida continuava. Gente pobre, lutadora, com dignidade acima de tudo. Hoje eu os invejo.

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