E venta, e venta aqui em cima, no Alto do Sumaré, nas terras da Escolástica. A tarde tinha se encurtado até o sol desaparecer no horizonte, depois de mergulhar o seu disco de fogo por trás do morro do Piolho e do Careca. Quando chegava este solene momento de fim de tarde em que, após a sideral ablução da natureza em volta dos morros, se revestia de novo esplendor, afigurava-me espiar os campos ao redor aos apelos dos pássaros, enchendo o ar de vibrações sonoras em busca de algum galho de árvore para seu repouso do fim de tarde. O lento sussurro do vento misturava-se ao zumbido das asas dos pardais que bamboleavam de um lado para outro, pulando de galho em galho no meio das árvores, buscando o refúgio natural que lhe servia de abrigo para a noite que se aproxima. <br><br>O Morro do Piolho tinha esse nome em virtude da grande extensão de plantas brancas que rodeavam o terreno e produziam um tipo de haste escura que grudava na roupa e arranhava a pele, semelhante ao piolho. Era ele conhecido por Marcela do Campo, ou simplesmente Picão Preto, ou Piolho de Padre. Na falácia popular era também conhecido como o Piolho de Urubu. Ao seu lado, erguia-se também outra elevação, o Morro do Careca, uma ascensão vertical cujo cerne verdejante de suas paredes de árvores e arbustos trazia uma falha no alto, dando ao observador a impressão de uma imensa área descoberta semelhante a uma enorme careca. Para os moradores mais antigos do bairro, sabem perfeitamente do que estou falando.<br><br>De tempos em tempos, as ramagens oscilavam levemente no balanceio de seus galhos. Era o vento que cumpria a sua transcendental missão de transportar a brisa refrescante da noite, depois de um dia quente e de muito sol. Na imperturbável serenidade da natureza, meus passos ressoam como uma espécie de atrevido presente no passado. Sacudo a roupa salpicada de fios de erva de piolho de urubu e aventuro-me por um caminho onde tudo parece amigável e acolhedor; as voltas do caminho, as pedras de cor ferruginosas, tudo permanece como estava, durante a minha ausência; as folhas estalavam sob os meus passos seguros. Eis o outono novamente presente, atapetando os caminhos com suas folhas amareladas, secas, caídas ao longo das ruas. Bairro da Escolástica, nome de sentido filosófico representando o último período do pensamento teológico cristão das escolas da Idade Média. Talvez tenha sentido esse nome inicial do bairro, ou seja, Campos da Escolástica, tudo aqui é medieval, tão medieval como o meu pensamento. <br><br>Antiga Rua Berlim, durante o conflito da Segunda Grande Guerra Mundial foi modificada para Padre Cursino, hoje, atual Rua Apinajés. Eis-me caminhando por ela ainda despidas do progresso. Ao atingir um barranco, para os lados da Alfonso Bovero e Cajaíba, empreendo uma caminhada em direção a capela de Nossa Senhora do Rosário da Pompéia, também no alto do morro. Recordo do dia em que fui até a capela de São Camilo de Lellis, no Alto de Vila Pompéia, e fui surpreendido pela chuva e me refugiei sobre o alpendre, onde guardavam os apetrechos do roçado, e pus-me a rezar de fronte ao altar do santo, enquanto esperava a chuva passar.<br><br>Lembrei-me de minha falecida mãe que, durante as suas peregrinações até a capelinha, ia depositar a sua fé diante da imagem de Nossa Senhora do Rosário de Vila Pompéia. Naquele tempo, estavam fazendo um mutirão entre a comunidade a fim de arrecadar dinheiro para a construção de um hospital que servisse aos anseios da população, que até então não contavam com nenhum serviço de saúde. Essas minhas abluções do espírito são apenas um rito de purificação e lavagem de minha alma avara, em vista dos acontecimentos que marcaram o falecimento de minha mãe. Naquela época, entretinha-me quase todo o tempo em viagens de negócios e quando ela adoeceu não pude prestar-lhe os devidos cuidados que tão necessários se fizeram para dar ao menos um pouco de conforto espiritual durante sua longa doença. Ela faleceu sem a minha presença. Durante muitos anos esse triste acontecimento me acompanhou e atormentou o meu pensamento. <br><br>Em frente à capelinha, a poucos passos do caminho, erguia-se uma árvore frondosa, talvez uma algodoeira nativa da região, recheada de cachos de algodão. Naquele fim de tarde, lá pelos lados do norte no serrado da Cantareira, ao longe, avistava na distância a chuva, que parecia desprender-se das nuvens que começavam a despencar com força sobre a terra seca. Na penumbra do crepúsculo do dia que acabara de findar, logo encontrava o atalho, por cujos “zigue-zagues” seguiam em direção à Rua Cajaíba, na casa do Zeca, meu amigo de infância. Como um soberbo morador antigo do bairro, ia de um lado ao outro por aqueles domínios por mim conhecidos. No alto do caminho de terra batida, seguia também, até a Rua Nova York, hoje, Havaí, onde havia uma velha árvore de fava, que na minha meninice costumava arrancar com o estilingue as suas vagens grandes dentro das quais se formavam as sementes que caiam do alto, circulando no seu próprio eixo. <br><br>Lembrei-me do Antonio passarinheiro e do Enio, filho do pintor, ambos meus amigos de infância. Por incrível que pareça, havia também uma rua com o nome de Paris. De Paris não tinha nada. A rua estava tão socavada pela erosão que se eu desse um tiro ou um grito ali podia originar a queda de uma das pedras mal assentes na enorme ladeira; assim eu me entretinha a gritar para ver se caia aquelas pedras que compunham o cenário da Rua Paris. Por uma brusca noção do tempo, tão levemente fugitivo, traz-me a memória outra rua do bairro: Rua Bruxelas, que durante as manhãs luminosas das quartas-feiras era montada uma feira livre, único meio de abastecimento porque não havia no entorno da região nenhum serviço análogo. Sem motivo aparente, o riso sobe-nos aos lábios e pelo pensamento, estimulado por alegres perspectivas, passam luminosas imagens sugeridas pelos menores detalhes, reais ou ilusórios, daquele distante tempo.<br><br>Um vidro, um raio de sol que bradou na janela, um pedaço de céu azul, nada mais é preciso. Em frente a minha casa, a poucos passos, na esquina da antiga Rua Nova York, hoje Havaí, contemplava, ao longe, o vulto inteiro do Jaraguá, que em certas ocasiões tinha a sorte de vê-lo mais próximo de minha janela, quando as condições atmosféricas favoráveis permitiam oferecer um espetáculo grandioso; o céu e a terra pareciam juntar-se iradamente, esboçando fugitivas silhuetas dos campos ao redor de onde a chuva caia. Se pudesse penetrar até o âmago da enorme pedra que se erguia semelhante a uma divindade que saísse gotejante da raiz da serra para contemplar o universo. Talvez surpreendesse o ígneo centro do planeta, onde se assenta o formidável caudal que reveste o Jaraguá. E venta. Venta aqui, nos altos do Sumaré. E nesses dias de ressurreição da natureza, na ânsia de recordar os tempos distantes de minha mocidade, trago aqui um resumo dos dias passados neste bairro da zona oeste de São Paulo, nos campos da Escolástica, no bairro do Sumaré. <br><br><br>E-mail: [email protected]