Campo do Éden

Certas coisas eram proibidas na minha vida de criança. Não ir para os lados da rua Aurora na Boca do Lixo porque era o paraíso das drogas e prostituição. A Major Quedinho, na Boca do Luxo, era mais tolerada porque as casas noturnas estavam sempre fechadas durante o dia. Parque Shangai era um não-não porque corria o boato que crianças desapareceram por lá e um outro lugar proibido era o campo do Eden. Minha mãe até se benzia quando eu falava nesse nome.
O campo do Eden estava localizado na várzea mais ou menos onde hoje está o Viaduto Jaceguai entre a rua Liberdade, hoje avenida, e a Conde de São Joaquim. Era uma fedentina danada devido ao córrego cheio de esgotos que por ali passava. Aos sábados sempre tinha jogo e sempre quebra-quebra com alguém saindo sangrando.
Apesar de tudo, sempre pensei em ir para aquele lugar assistir um jogo de futebol porém, tinha receio de que meus pais descobrissem e levaria uns cascudos com certeza.
Até que um dia lendo a Gazeta Esportiva na secção "Convites para Jogar" fiquei sabendo que o time da Sudan – penso que era uma fábrica de cigarros, viria jogar naquele campo no sábado seguinte e decidi desobedecer. No sábado, juntamente com outros pirralhos, fomos para lá e acabamos nos perdendo durante o jogo e eu fiquei sozinho. Havia muita gente, veio até uma caravana de caminhões da várzea do Glicério.
Lá pelas tantas, com o time da casa perdendo, o beque central deu um pontapé no guarda-valas do time visitante e o quebra-pau começou. E eu ali sem saber para onde ir porque era garrafas de cerveja, pedras, voando por todo lado. Como ali era um verdadeiro lixão onde pessoas depositavam velhos sofás, camas e tudo mais, os valentes começaram a usar estes objetos como armas. O jogo acabou. E eu ali escondido atrás de umas bananeiras pensando o que estaria acontecendo para os meus amigos. Estarão vivos? Pensava eu. E meus pais, quando sentirem minha falta?
Já estava escurecendo, quando escutei latidos de cachorro e era a Força Pública chegando. Foram recebidos a pedradas, porém alguém gritou que mais reforço estava chegando pela rua Asdrubal e os briguentos se dispersaram. Haviam vários feridos graves, penso que ninguém morreu, pelo menos naquele dia, quando decidi desobedecer meus pais. Ao voltar para casa só fiquei mais calmo quando soube que os amigos estavam bem, apenas arranhões.
Muitos anos depois o córrego foi canalizado e campo do Eden foi enterrado pela nova avenida 23 de Maio.
Hoje em dia, quando passarem por lá façam o sinal da cruz em respeito aos que ali tombaram… jogando ou assistindo o nosso famoso futebol de várzea.