1963, tempo em que a região sul não era explorada além de Santo Amaro.<br>Naquele tempo o bonde era um perfeito meio de transporte, pois partia da praça joão mendes e num instante estava como que navegando pelos trilhos em linha reta por muitos quilômetros. A cada parada, depois do Biológico, vinham as paradas França Pinto, Ipe, Ibirapuera, Moema, Indianópolis, Vila Helena, Campo Belo, Piraquara… Era sempre aí que eu descia do bonde, bem junto ao laboratório Carlo Erba, na esquina da rua Vieira de Morais, ao lado das duas padarias Lago Azul e Flor do piraquara, ao redor das quais se formava o pequeno núcleo de comércio daquela região. Tinha também a Farmácia do Seu Carlos, uma pequena papelaria e uma loja de ferragens.<br>Mas o mais encantava naquele bairro era a tranqüilidade das ruas sem movimento, onde você andava e ouvia o toque-toque do salto dos sapatos, onde você andava rente aos muros das casas e vislumbrava os jardins com plantas que hoje são quase que desconhecidas, como a Giesta, as Bocas de Leão, os Copos de Leite,os Cravos de todas as cores, e uma mistura inesquecível de perfumes no ar, que ao final da tarde era invadido pelo cheiro das Damas da Noite.<br>Caminhar pela Av. Rodrigues Alves era um passeio ecológico, pois sempre se encontrava sapos, rãs, cobras, um sem fim de pássaros e muitas vezes bandos de cavalos soltos, que partiam em disparada quando assustados. Ainda não havia asfalto na região, e a avenida dos Bandeirantes era um simples projeto que seria mais tarde realizado através da canalização do córrego da Traição e que ligaria a futura Marginal do Pinheiros a São Judas.<br>No verão, lá pelas 16 horas, quase sempre o céu se tornava escuro e caia uma forte chuva. As águas que vinham se acumulando desde o aeroporto encontravam a barreira elevada formada pelo leito dos trilhos do bonde, e na Rua Amazonas (Jesuino Maciel) acabavam por inundar as casas com mais de 2 metros de água enlameada.<br>A parada do bonde era provida de uma cobertura e de bancos para espera, e durante a noite esses bancos serviam de cama para o Fritz, que , segundo diziam, era um soldado alemão desertor da segunda guerra. O Fritz andava sempre segurando a calça na altura da cintura, e muitas vezes ele se jogava no chão quando o bonde passava, pois o barulho do bonde fazia com que ele se lembrasse do barulho dos tanques de guerra. Ele não falava o português, mas grande parte da população do Campo Belo e Piraquara eram de origem alemã, e essa população ajudava a sobrevivência do Fritz.<br>