Campeonato brasileiro de bancos?

Lá pelos anos 1940, ou talvez até antes, os bancos eram produtos para endinheirados. Sim, aqueles que tinham que pôr seu dinheiro, oriundo de suas indústrias ou fazendas. Ter um local para tomar conta de sua conta corrente, e também um banco para dar um suporte financeiro para suas extravagâncias burguesas, como casarões enormes, que naquela época era o sinal de membro do tronco quatrocentão paulistano.<br><br>O pobre, aquele que quando muito colocava seu dinheiro debaixo do colchão, isso quando tinha, ou então tinha que trocar um título ou pedir um dinheirinho para comprar um presentinho de Natal, ou mesmo pagar uma pequena dívida, não tinha vez naqueles bancos destinados à "alta sociedade".<br><br>Foi quando surgiu um caboclo da cidade de Marília, vendo aquilo achou por bem fazer pequenos empréstimos aos pobres da região. O negócio foi dando certo e ele resolveu fundar um banco. O tal caboclo chamava-se Amador Aguiar, que junto a alguém formou um pequeno banco onde a plebe começou a ter empréstimos e juros compatíveis com suas rendas. O banco já tinha sua denominação: Banco Brasileiro de Descontos. Os banqueiros e seus clientes abastados morriam de rir, e apelidaram o novo banco de "banquinho" de Dez Contos.<br> <br>E o Banco de Dez Contos de Réis foi crescendo, e nos anos 1960 passou a ser um banco respeitável. Sendo assim, acharam por bem colocar o banco na mídia. Um dia, o diretor de jornalismo da Rádio Bandeirantes, Alexandre Kadunk, recebeu em sua sala um caboclo alto, rústico, de mãos calejadas, com aspecto de um lavrador judiado pelo sol, que chegando a sua mesa de trabalho disse que queria colocar seu produto para patrocinar um programa. O tal caboclo aí citado era nada mais nada menos que aquele que começou a emprestar dinheiro aos pobres. Senhor Amador Aguiar.<br><br>Seu produto era o Banco Brasileiro de Descontos. Seu divulgador seria o Rádio Jornal Primeira Hora, que estava se iniciando para concorrer com o Grande Jornal Falado Tupi, de Corifeu de Azevedo Marques, um marco do jornalismo do rádio paulista e brasileiro através das potentes ondas sonoras de média e longa extensão.<br><br>Da mesma forma que o programa era bem aceito pelo público ávido por saber de notícias, o banco que o patrocinava também foi aceito, por se tratar de um banco que dava sustentação às contas populares, o afluxo de pessoas foi muito grande.<br><br>O que era dito pelo rádio era comprovado pelos correntistas: Banco Brasileiro de Descontos, garantia de bons serviços. De repente ficou-se sabendo que aquele "banquinho" já era o maior banco do Brasil, na década dos anos 1970, quando comprou o banco da Bahia e toda a sua rede de agências, ficando um banco forte, e considerado o maior de todos.<br> <br>Esse ex-banquinho ficou tão forte que resistiu a todos os boatos que estava para falir. Até mesmo na época do famoso "milagre financeiro", do início dos anos 1970, o banco estava na corda bamba dos boatos.<br><br>- Sabe, gente, o Bradesco vai falir!<br><br>- É mesmo, por quê?<br><br>- O Bradesco comprou a Eletro Rádiobrás, que está por um fio da insolvência, ela falindo o banco fali também.<br><br>Eu, com a minha continha no banco, fiquei apavorado. Num sábado encontrei com Salomão Ésper no corredor da Rádio Bandeirantes, onde eu prestava modesto serviço, pensei:<br> <br>- Já que Salô é um dos locutores do jornal Primeira Hora, ele deve saber.<br><br>Então perguntei:<br><br>- Salomão é verdade que o Bradesco vai falir?<br><br>- Que nada, o meu está lá, e eu nem estou preocupado!<br><br>Bem, se Salomão tá com a grana lá e nem se preocupa, quem sou eu para ficar preocupado.<br><br>A união do patrocinador e patrocinado era tão forte que por pelo menos mais de três décadas os dois estiveram juntos no noticiário, cujo programa está até hoje no ar, às sete horas da manhã pela Rádio Bandeirantes.<br><br>O Bradesco era o maior banco do país, até mesmo o Banco do Brasil ele deve ter passado para trás (coisa que não tenho certeza). Pelo menos o maior banco privado ele era, sem dúvida. O Itaú esteve sempre em seus calcanhares, nunca conseguindo emparelhar. Mas agora com a fusão do Itaú com o Unibanco, numa transação surpreendente, não tanto pela transação em si, mais pelo sigilo que perdurou em um ano de negociação.<br><br>Na certa, tanto Pedro Moreira Sales quanto o Paulo Setúbal não devem ter dito nada para as esposas, daí o sigilo total.<br><br>Agora que o Bradesco ficou para trás e o Banco do Brasil também, começou a procura de novos bancos para serem comprados para tentar a volta da liderança.<br><br>E eu fico a pensar: Será que é preciso ser o maior? Existe algum concurso que dá um prêmio valioso para quem atinge o alto do podium?<br><br>Sim, porque os economistas que foram procurados a falar da fusão Itaú-Unibanco foram unânimes em dizer que tanto o Bradesco como o Banco do Brasil tinham que correr contra o prejuízo. Qual seria o prejuízo de um banco não ser o maior de todos?<br><br>e-mail do autor: [email protected]