Até hoje eu me pergunto por que repentinamente me afastei de São Paulo, lá se vão quase cinco anos; moro atualmente em Santa Catarina, minha cidade natal é Joinville, da qual saí juntamente com minha mãe Izabel no distante ano de 1950, tinha apenas oito anos incompletos.
Joinville é uma bela cidade, acontece que minha família, esposa e filho não acostumaram, falta aquele calor humano que São Paulo oferece, no meu caso foram quase 60 anos morando na Paulicéia Desvairada. Calma São Paulo, eu estou voltando, pois quero rever obedecendo ao antes e ao depois, tendo como apoio o GPS, o túnel do tempo. Quero inicialmente rever o boêmio bairro do Bexiga, Bela Vista de boas recordações como a descida da escadaria que os levava na parte baixa da cidade, morávamos na parte alta, Rua dos Ingleses, de mãos dadas com minha saudosa e linda mãe Izabel iríamos fazer as compras na divertida feira livre e assistir aos ensaios dos blocos de escola de samba; quero rever também o bairro da Casa Verde aonde, acompanhada de vovó Gilda mãe de meu padastro, José ia de manhã às missas e a tarde dos domingos à sessão de cinema do bairro onde a fantasia coloria a nossa mente infantil; o mocinho contra o bandido, o Super-homem defendendo os mais fracos.
Quero rever, continuando, o estádio do Pacaembu onde em um domingo, embaixo de um temporal, veria o meu Palmeiras ganhar do Corinthians, a rivalidade existia. O time alvinegro era um timaço.
Quero rever a Ponte Pequena, hoje a poluída e barulhenta Estação Armênia, onde em um campinho improvisado aprenderia os primeiros chutes em uma bola de borracha, nascendo aí minha paixão pelo futebol.
Quero rever a Pompéia, quem ler esse texto calcula como era nômade esse pessoal; é que eu tinha que acompanhar; no bairro da Pompéia moraria quase em frente ao Palestra, daí ser palmeirense, o verde esperança já me fascinaria.
Quero rever, no bairro de Santana onde morei por muitos anos, o Grupo Escolar Buenos Aires, o Vitor Viana, responsáveis pela minha modesta formação como também rever os locais inesquecíveis, os bares, a Padaria Polar, as ruas dos flertes.
Quero rever os ginásios de esportes onde, como arbitro de futsal federado, apitaria muitos e grandes duelos. Quero rever o Horto Florestal onde, em um domingo de sol, embaixo de uma árvore colorida, um ipê amarelo, daria beijos audaciosos em uma loura descomunal. Censura…
Quero rever os bosques e lagos do Parque do Ibirapuera, tendo como destaque o planetário onde olhando as estrelas na imensidão celeste declararia uma paixão a uma moça chamada Corina, vá ser volúvel assim na China…
Quero rever o prédio da antiga TV Excelsior, na Nestor Pestana, onde atuaria como cantor no Show do Meio-Dia; como eu era versátil, seria um astro… Mas, não fui. Quero andar por todas as ruas centrais, parar em frente ao Mappin e recordar o seu glamour, recordar o tempo de office-boy, entrando e saindo das repartições, e depois comer uma salsinha no Largo do Café.
Quero rever a Broadway paulistana, Av. Ipiranga, São João, hoje com prédios cinzentos e maltratados; na juventude os luminosos iluminavam as ruas com letreiros anunciando os grandes filmes que mexeriam com nossas emoções, Férias de Amor, Sete noivas para sete irmãos, o Vento levou… Enfim, quero rever tudo, pena que o espaço é pequeno. Não sou egoísta, é que São Paulo foi muito importante.
Continuando, quero rever, não importando a falada insegurança, a poluição, as pichações, infelizmente é o ônus do progresso. Calma, São Paulo, não fique nervoso, eu estou voltando mesmo não tendo uma casa para ficar, por você moro até embaixo da ponte… Calma São Paulo, eu estou voltando…
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