Eu ajudava o papai em pequenas tarefas do seu negócio. Era comum ir à cidade para pagar contas no banco. Em uma das vezes, quando cheguei na cidade, desci do bonde e lá estava ela! Estacionada na porta da loja "Casa Perez" da Rua líbero Badaró com o Largo São Bento; preta reluzente, brilhante, polida, imponente, chique e bonita… Longa, com quatro portas, como aquelas dos filmes de gângster.
– “Uau!”, disse comigo mesmo. Cheguei mais perto para admirá-la. Fui tentado por tocá-la mais tive medo. Permaneci diante dela por segundos sem dizer nenhuma palavra. Não me fartava de olhar todos os detalhes. Tudo era impecável, bem feito, correto…
Continuava ali em pé, absorto com aquela beleza quando fui "acordado" por alguém atrás de mim.
– “Bonita, não é mesmo?”.
Tomei um susto! Não consegui dar resposta, pois continuava atônito. Era um senhor bem vestido e elegante. Tinha as chaves nas mãos. Era o dono daquele carro maravilhoso chamado Cadillac! Abriu a porta do motorista. Todas as luzes se ascenderam dentro do carro. Pude notar o estofamento de casimira cinza escuro, impecável. Sentou-se e bateu a porta. Ouvi o arranque funcionar. O motor funcionou de um trato, imperceptível, suave.
Vagarosamente “a” Cadillac começou afastar-se. Parecia a dona da rua. Opulenta e pomposa “a” Cadillac rolava firme pelo asfalto preto no contraste alvo da banda branca dos pneus. Ganhou distância e sumiu curvando à direta na Avenida São João. Ainda ali no mesmo lugar, eu sonhava acordado…
Voltei a mim. Segui direto ao banco para pagar as contas do papai. A partir daquele momento todos os carros ficaram feios, sem classe e barulhentos. Quando cheguei em casa, antes que papai cobrasse a minha tarefa, indaguei:
– “Pai. Por que o senhor não compra um Cadillac?”
– “O quê?"
– “Por que o senhor não compra um C-a-d-i-l-l-a-c repeti com vagar.”
– “Um Cadillac?”
– “É…”
– “Você sabe o que você está falando?”, perguntou-me sorrindo e continuou.
– “Você pensa que eu sou sócio do Matarazzo?”
Matarazzo era uma família de industriais ricos da época. Compreendi o que ele queria dizer.
– “Pai, Cadillac é um bom carro?"
– “Filho, é o melhor carro do mundo. Bem que eu gostaria de ter um. Vou ter que vender muitos calções (referindo-se as roupas esportivas) para chegar lá. Estude bastante que um dia você poderá comprar um", concluiu.
O melhor carro do mundo, repeti comigo. O meu pai entendia de carros e se ele disse que é o melhor carro do mundo, eu deveria acreditar. O Cadillac preto costumava estacionar no mesmo ponto da cidade. Muitas outras vezes passei por lá para admirá-lo: o melhor carro do mundo – Cadillac!
Bons tempos quando a gurizada sabia de cor as marcas e o tipo dos carros. Hoje, para mim, todos os carros se parecem, menos Cadillacs, é claro.
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