Cabeça de sereia

Quando adolescente e mesmo já adulta, nos meus passeios pelo centro de São Paulo para ir aos cinemas, para fazer as compras pelas ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, 7 de Abril e outras, para namorar na Praça Don José Gaspar, para idas à Biblioteca central, para assistir aos Consertos Matinais Mercedes Benz, no Teatro Municipal, aos domingos pela manhã, onde cheguei a levar meu filho ainda bem pequeno, onde ouvi pela primeira vez os pianistas João Carlos Martins e Nelson Freire que, muito jovens, iniciavam suas carreiras brilhantes, ia também a um dos meus pontos preferidos, que era o Cine Metro, na Avenida São João. Subindo um pouquinho, um passeio pela Praça Julio Mesquita para apreciar uma das obras de arte de que eu mais gostava na cidade, o chafariz ali existente.

É uma linda escultura da artista Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto, iniciada nos anos 20 e inaugurada em 1927. São duas bacias de mármore superpostas, uma de dez metros de diâmetro e outra de nove metros. No alto, a figura principal é um pescador, atraído pela tentação de quatro sereias, com cabeças em bronze. Na bacia inferior, agarrada a ela, lagostas também de bronze, muito bonitas.
O que outrora fora uma linda praça e uma belíssima escultura, já nos anos 70 se encontrava em estado de abandono. Eu ainda tenho na mente a imagem da Praça mais ou menos bem cuidada. Talvez naquela época a Praça estivesse sendo vigiada e cuidada por sua guardiã, dona Minerva Maluf. Ela é moradora em um apartamento diante da Praça e, por muitos anos, cuidou dela, como se fosse sua, é o que nos informa Douglas Nascimento, em seu site saopaulorestaura.com.br.

Bem na frente da Praça, do lado oposto à Avenida, havia um sapateiro italiano que fazia lindos sapatos, à mão, copiando o modelo de qualquer revista que se levasse para ele. Eu era sua freguesa (hoje se diz cliente) e mandava fazer sapatos charmosos e diferentes. Eu os tinha em azul marinho, azul marinho e branco, marrom e branco, pretos, alguns forrados em tecido, como era moda então, e como foi o meu sapato de casamento, forrado em cetim rosa, acompanhado por luvas que iam até o cotovelo, também rosa. Chique de viver, né?

Quase defronte à Praça, na Avenida São João, se localizava o famoso Teatro Natal, chamado de teatro do rebolado, onde se apresentavam as grandes vedetes de então: Wilsa Carla, Íris Bruzi, Virginia Lane, Renata Fronzzi e tantas outras boazudas, como se dizia na época, onde nunca entrei, embora tivesse muita vontade de transgredir. Transgredir porque, como já o citou em uma crônica aqui no site o Saidenberg, os nomes das Revistas não recomendavam muito o ingresso das filhas de boas famílias: Tem pu pu pu no pó pó pó, por exemplo.

Hoje a querida Praça Julio de Mesquita virou um dos redutos do tráfico e do consumo de drogas, em plena Cracolândia.

Completamente abandonada! Suja, depredada, tudo que era de bronze foi roubado: as cabeças das sereias, as lagostas e até a placa com o nome da artista que a esculpiu. São 37 anos de abandono!

Na gestão da ex-prefeita Martha Suplicy, a Praça e o chafariz ainda chegaram a passar por uma limpeza e reforma. As cabeças de sereia e as lagostas foram substituídas por outras peças de cerâmica, numa tentativa de preservação das peças antigas que ainda restavam. Dizem que as peças que ainda restaram do vandalismo estão guardadas nos depósitos da Prefeitura. No caso de uma restauração poderão servir de moldes para outras novas.
É ainda Douglas Nascimento quem informa que a escultura está incluída na campanha “Adote uma Obra Artística”, mas até agora nenhuma empresa a adotou. Segundo avaliação da Prefeitura, sua restauração custaria mais ou menos 500 mil reais.

Particularmente, desejo de todo coração que esta obra seja adotada e restaurada, mas acho também que, enquanto a Cracolândia existir, dificilmente alguma empresa investirá um dinheiro, já a priori perdido. Desejo que os projetos que a Prefeitura tem para a região sejam realmente postos em prática e assim, na esteira deles, a Praça esteja junto.

São Paulo não merece tanto descaso e abandono. A cidade tem muita beleza e muito glamour. É preciso revitalizar tudo isto. Cada um de nós precisa ser uma Minerva Maluf, que demonstra seu amor pela cidade, cuidando dela. Um pedacinho que seja. Somos milhões e podemos formar um pedação.

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