Bullying sempre existiu na escola

Onde fomos morar depois de sairmos da Vila Nova Conceição era mata virgem, um clarão aqui outro acolá. O caminhão com a pouca mobília estava na carroceria com meu pai, eu e minha mãe vínhamos na boleia pela “Estrada de Santo Amaro”; nada de avenida, a poeira levantava pelo caminho. O motor roncava atravessando o Rio Pinheiros, subindo em direção ao morro de um jardim, acreditava que ali era mesmo o "Jardim do Éden", o Paraíso, pelo menos para a criançada que estava chegando aos poucos, uma verdadeira "legião estrangeira" de famílias portuguesas, italianas, espanholas, japonesas, mineiras, nordestinas em um bairro de operários. O Jardim São Luiz era o interior de São Paulo, parte da "boca de sertão paulista" e que os mapas antigos definem como "Coruroca".

Nossa escola era o "Grupo Escolar Jardim São Luiz", referência ao nome do bairro (com Z mesmo), e para nela chegarmos andava-se por morros, pastos de cavalos, coqueiros naturais, (nada plantado pela prefeitura) jabuticabeiras, uma bica d'água vinda de uma fonte, mulheres torcendo roupa nas suas tinas e quarando na grama, roupas branquinhas lavadas com pedra de anil e sabão de gordura e soda fervida, feito pelas próprias lavadeiras, até chegarmos a "fonte de saber". Minha mãe "me aprumava" para ir à escola e repetia sempre que "eu tinha que ser gente um dia", ou seja, naquele tempo eu não era!

A escola não possuía muros e as salas eram todas de madeira com estrutura toda assoalhada. Os professores eram rígidos, estávamos na fase da teimosia, achávamos que sabíamos tudo e na hora das "sabatinas" era "nota zero para todos os lados". Recebíamos alguns sinônimos depreciativos como preguiçosos, vagabundos e, às vezes, ajoelhávamos de traseiro para cima em um meio quilo de milho levado de alguma horta para nossos próprios castigos e lá se ficava escrevendo cem vezes "não devo fazer bagunça na sala de aula". Ué, fora dela podia? Os joelhos ficavam em "pandarecos", as primeiras linhas escritas saiam mais ou menos, acredito que até menos do que mais, e as últimas nem davam para ler, toda tremida, o cansaço era inevitável. Havia o sadismo de algum professor, pois algumas vezes ganhávamos "local honrado", para tornarmo-nos exemplo aos demais, quanto a nossa pouca compreensão da matéria: um banco alto e um cone na cabeça com um substantivo horroroso: "Burro".

Havia professor que possuía alguns "castigos especiais" usados por não sabermos um “bê-á-bá” qualquer, éramos colocados à frente do quadro negro, (que depois de muito tempo ficou verde, depois branco escrito com pincel atômico e agora é uma tela com data show) e recebendo um verdadeiro cutucão em nossas "panças" com os dedos de uma das mãos juntos, dizendo solenemente:
“Amanhã quero a tabuada de cor e salteada!” Coisa difícil, muito mais salteada, era esse o meu maior temor! Algumas "fessoras" tinham a maldita palmatória, com uma bolacha de madeira na ponta com um furo vazado, e se fechávamos a mão "sentava a pua" nos dedos mesmo.

Isso claro refletia no recreio, uns zombando dos outros, o “zum-zum” chegava pelos apelidos que era marca registrada de cada um: Barriga, para os gordinhos, Saracura, Magricela, Passa Fome, Zé Maloca, Fedido, Sapo, Murruga, Zé do Mato, Tico, Jacu, Pelé, Tremedeira, Mita, Cai-Cai ou Japa, comum para todos de origem do sol nascente, um verdadeiro time de futebol à moda antiga. Uns eram tão ofensivos que nem há como expô-los e que causava certos entreveros, e "saíamos na mão", tabefe para todo lado. Um saía todo estropiado, outro de olho roxo, mas tínhamos que acertar as diferenças na rua, pois se chegássemos chorando em casa "apanhava-se duas vezes!” "Bater gazeta", faltar por "nada" nem pensar, o inspetor iria saber o porquê de nossa ausência!

Não adiantava reclamar, pois a escola era sagrada e os professores intocáveis, sempre estavam com a razão, mesmo quando achávamos que não tinham essa razão toda. Não sei se o método era o mais adequado, mas "virei gente" como minha mãe queria, eu não podia ser outro animal como o "burro da escola" e o Brasil precisava de gente inteligente! Somente "passava de ano" quem sabia mesmo, nem segunda época existia!

Esse tal de "bullying", que está agora em todas as manchetes, sempre existiu, não é coisa atual, davam-se outros nomes para isso, como caçoar, apoquentar, bulir, com diziam os "moleques" e na atualidade se tornou matéria de seminário e muita assembleia de troca de experiências e estudos de vários educadores, de muitos segmentos do conhecimento da pedagogia. Será que vão chegar em um meio termo, entre o castigo e indiferença na busca de uma educação de bom nível?

Hoje essa "coisa" mata, inventaram a pólvora!

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