Um ronco de respeito

Nos meus tempos de menino tive uma infância normal e na medida em que toda a criança pudesse desfrutar, pois, desde pequeno, sempre alimentei o interesse pelos automóveis e, para isso, tive um esplêndido professor que foi o meu tio Raphael. Pessoa enigmática e ímpar, tio Raphael era uma pessoa bastante conhecida de todos na Rua Santo Antonio, lá no Bixiga, por sua excentricidade e espontaneidade. Era seu costume ficar à porta de nossa casa e, por horas, apreciava o movimento (que já era grande) das pessoas e dos carros (principalmente estes) que por ali passavam.<br><br>Homens, mulheres, crianças, mendigos, estranhos ou conhecidos, brasileiros ou não, animais, carros, carroças, caminhões e ônibus, tudo e todos eram devidamente observados pelos olhos investigativos de meu velho tio. Era um homem inteirado de seus conhecimentos e discutia até sobre moda, arriscando palpites em quem estivesse bem ou mal vestido, apresentando em seguida as variações de combinações para uma ou outra roupa que alguém estivesse usando. Quanto aos carros, ônibus e caminhões, acho que ninguém era tão bem versado no assunto quanto ele. <br><br>Uma vez, o Jamil disse-lhe que se levassem para ele uma lasca de lata pintada de qualquer carro ele identificaria a marca e o ano do veículo. Brincadeiras à parte, tio Raphael foi meu preceptor automotivo com pós-graduação em náutica e aeronáutica. Brincávamos de adivinhar marcas e motores dos muitos carros que passavam por nossa porta e ele se extasiava quando uma “bella macchinna” o deixava em dúvidas, ao que ele corria para a sua “biblioteca” pessoal e o identificava. O que para mim ainda era uma enorme dificuldade, para ele era “sopa”, pois, como ele mesmo dizia: “pelo andar da carruagem sabe-se o que é e quem vem dentro dela…”. Portanto, quando determinado veículo se aproximava ele identificava a marca, ano de fabricação, tipo de motor, hp's, tipo de câmbio, aro dos pneus, tipo de suspensão e tudo o mais apenas em um rápido passar de olhos.<br><br>Certa vez, passou em nossa rua um automóvel com a direção do lado e eu não soube identificá-lo. Meu tio ficou curioso e montou guarda na porta de casa no possível horário em que eu havia visto passar. Foram alguns dias de sagaz vigília, até que um dia… o tal carro se aproximou. Estávamos nós lá, apostos, e ele, o carro, passou por diante de nossas vistas como se estivesse em um desfile, bem devagar, permitindo a meu tio que o observasse de “cabo a rabo" e, quando já se perdia na distância, o velho Raphael olhou-me com altiva segurança e disse-me:<br><br>- Você não poderia identificá-lo nunca, pois, trata-se de um modelo muito raro por estas bandas do Bixiga.<br><br>- Raro! – exclamei surpreso.<br><br>- Raríssimo – enfatizou. – Trata-se de um Bentley, na cor “verde-britânico”, motor de seis cilindros com 6 cilindros em linha, ano de fabricação 1955/56. Esse carro é da mesma fábrica do Rolls Royce. Nós podemos compará-lo a um “primo pobre” da marca.<br><br>Depois de identificação, corri para a sua “biblioteca automotiva” e, após exaustiva busca, encontrei uma matéria com o exemplar em questão. Não é que o danado do velho tinha acertado.<br><br>Cresci, fiquei adulto, fiquei besta e casei, e vim para a Bahia. Aqui chegando, encontrei uma “baba”. Alguém desejoso de se livrar de um carro dispendioso me ofereceu a preço de banana. Era um Dodge Charger RT, oito cilindros, 215 hp's (mascarados), câmbio no chão de quatro velocidades à frente, pneus aro 14, 0 a 100 em 8 segundos e beberrão (4,5/l na estrada acima de 100 km/h). Apesar de “consumidor” (o carro), eu até que gostava muito dele e o maior charme era chegar de mansinho e acelerar rapidamente, só para ouvir o ronco do motor. Era um êxtase total, pois, aqui na Bahia, não é costume das pessoas terem carros de grande porte como os Dodge's ou Galaxie's. No máximo um Opala (quatro cilindros) e olhe lá, para aqueles que gostam de carros antigos (no interior da Bahia ainda se vê muito deles).<br><br>Foi um carro que fez muito sucesso e chamava bastante a atenção. Afinal de contas, qual o melhor ronco? O “brumm-brumm” ou o “VRUUMMMM-VRUUMMM…”, hein? Todos que se aproximavam por curiosidade e apreciavam a máquina liam a marca do carro e exclamavam: – "D-O-D-G-E (dê-ó-dê-guê-é) – êta ‘Fordão’ danado…”, coisas do nordeste. Ainda hoje, alguns nordestinos e pretensos “conhecedores” de marcas automotivas ainda trocam Galaxie por Dodge e vice-versa. Hoje, meu segundo carro é um Ford Landau e o primeiro um Rolls Royce Silver Writh LWB (que ainda não comprei, mas, é só questão de tempo e dinheiro) e, quando estou na porta de minha casa, sinto saudades dos tempos do Bixiga e dos carros que passavam à nossa frente. Por aqui só passa carroça, cavalo, jegue, uma ou outra Pickup D-20 dos rancheiros que moram um pouco mais à frente.<br><br>Meu tio Raphael, se vivo estivesse e morando aqui comigo, já teria morrido vinte vezes de tédio – risos.<br><br><br>E-mail: [email protected]