Brincando de Nossa Cidade

Em nossa terra tem brincadeiras

que todo mundo conhece.

Tem pião, tem dadinho, tem peteca,

tem carnaval e confete, tem dama,

tem palitinhos, esse então ninguém

esquece.

Porém o nosso melhor brinquedo,

o melhor brinquedo que existe,

o mais conhecido por todos,

e não importa a idade,

é brincar de Nossa Cidade,

é fácil de se brincar,

quase todos se divertem.

E o pobre só pode participar

como peças, obviamente.

 

Parece-se com o Xadrez,

também tem rei, rainha,

bispo, cavalo é peão.

Nele também, o rei vale mais.

que a rainha, a rainha

mais que o bispo, o bispo mais

que o cavalo e o cavalo mais

que o peão.

Pois como já dizia um nosso falecido

Presidente (do quais alguns já tem até saudades)

cavalo cheira melhor que o povo.

Isso ele disse outrora,

pois se vivo estivesse agora

diria e sei que não minto,

que cavalo cheira melhor que político.

 

A diferença é que nesse jogo

as peças são vivas e os peões

estão sempre morrendo.

Uns morrem de desemprego

outros de apatia, muitos de ignorância,

outros sem hospitais, ou então de

juros altos.

Porém, a grande maioria

morre de fome e doenças

por toda a periferia.

 

Assim sendo é fácil distinguir o peão.

Porém, as peças maiores também as mais

importantes, com mais força nas decisões

nem sempre são reconhecidas com facilidade,

é muito difícil saber-se quem é cavalo,

bispo, torre ou rainha, porque todos são

muito parecidos e usam as mesmas artimanhas,

brigam o tempo todo

mas no finalzinho do jogo

acabam mesmo dando as mãos.

 

Tanto é assim que certo bispo. Mais cedo

do que esperava, ganhou em um joguinho desses

a posse de uma TV.

Em Nossa Cidade, para vencer,

a coisa mais importante é fazer

uso da lei de Gerson: Levando vantagem

em tudo.

 

Por esta razão a tática mais usada

é mudar as regras do jogo

a todo o momento,

em benefício próprio.

Por exemplo, para liquidar o maior número

de peões com apenas uma jogada basta pagar

o salário mínimo, não registrar a carteira

profissional, não dar aumento aos aposentados

e votar um grande aumento,

ao salário dos cavalos, bispos, torres, reis,

e rainhas.

 

Ou então superfaturar os preços dos remédios

isso mata qualquer peão.

O que faz essa brincadeira

tornar-se fantástica e irresistível,

é ver como é fácil liquidar os peões.

 

Porque Nossa Cidade é um jogo

em que quanto mais peões

se lascarem para sustentar os cavalos

as torres os reis e rainhas, mais fortes

e imbatíveis eles serão.

 

A pequena diferença deste jogo com o

xadrez tradicional, é que nesse, não se

ganha dando xeque-mate, mas só com

cheques sem fundos.

e o peão paga a conta.

A Nossa Cidade é um jogo

em que para se sair vencedor

precisa-se no lugar de técnica

apenas de muita esperteza.

E também de nenhum amor.

 

Existem várias hipóteses para

ganhar, nenhuma delas, porém,

ensinadas em bancos da escola

mas com toda a certeza, ensinadas

nas escolas dos Bancos.

É um jogo divertido e tem a garantia

de que os corruptos vencedores,

por mais que se envolvam em falcatruas,

jamais conheceram um autêntico xadrez,

 

Para isso contam com imunidades parlamentares,

enquanto estiverem jogando.

Ou então com Embargos Infringentes,

que obrigue um novo julgamento

quando os mesmos forem condenados.

 

Este texto foi escrito por Ewerton Neto.

Adaptado e atualizado por Arthur Miranda.