Brás, futebol e algo mais

A primeira partida de futebol que assisti foi na década de 30, no campo do Santa Rosa, atrás do Palácio das Indústrias e onde hoje localiza-se a Praça de São Vito. O campo também era usado pelos moradores do Brás para encurtar o acesso ao novo Mercado Municipal, que era o orgulho de todos os paulistanos. Também deste local eram soltados os fogos de artifícios, no encerramento da festa de São Vito; e o pau-de-sebo, sendo que o ganhador invariavelmente era o Edinho. Ele era ágil, magrinho e pequeno, mas na verdade, como se diz hoje, ele era gato.

Voltando ao futebol, o Santa Rosa usava uniforme azul e tinha como sede um pequeno armazém na Rua Carlos Garcia. Essa sede era usada também como vestuário para os jogadores se trocarem. Os jogos eram sempre aos domingos pela manhã e eu sempre ia assistir. Vou citar o nome de três jogadores que eu me lembro: Narciso Rodrigues e seu irmão Antonio, que trabalhavam na Rua Santa, e um rapaz de nome Sete. O intuito, ao relembrar nomes, é a esperança de levar recordações a pessoas descendentes dos próprios; se eu encontrar um que seja, posso dizer que valeu apena.

O outro clube, já da década de 40, era o São Cristovão. Sua sede social era ampla, num sobrado da Rua do Gazômetro, em cima do ‘Bar Fulgor’, na esquina da Rua do Gazômetro com a Rua Mons. Anacleto. O clube era filiado à ‘FPF’ e disputava o campeonato amador, chegando a disputar um título numa preliminar de um jogo oficial no novo estádio do Pacaembu. A direção e associados eram na maioria donos de bancas de jornais e investigadores policiais. Na sede havia uma sala de jogos carteados que funcionava a noite toda.

Todos os carnavais o clube fazia um jogo entre casados e solteiros, fantasiados de mulher. O jogo era no campo do Santa Rosa, já que clube não tinha campo. Os jogadores que me lembro do nome: Robertinho, Pompeo, Belardo, Camarão, Valdir, Pedraza e Dilena. Havia também um clube chamado Estrela de Oliveira, cuja sede era na Rua do Lucas. Era um clube amador de box e atletismo. Por curiosidade, cheguei a ver o treino de Box, que era realizado todas as noites e chamava a atenção devido a um lutador gordo, que era uma das estrelas do clube. Para encerrar essa parte, o lutador gordo era pai de nosso querido Roque Vasto, segundo me contou o próprio Roque.

Em seguida vem o Botafogo, que se reunia no ‘Bar Fulgor’, na Rua do Gazômetro, esquina com a Rua da Alfândega. Era um time forte, porém, ao contrário do São Vito, não teve nenhum jogador que se tornasse profissional. Já o São Vito teve 3 jogadores que jogariam no time aspirante do Corinthians, que eram da zona cerealista, o Dilvo Silvestre, o Nicolinha e o Vítor, além do Rafael, que foi campeão do quarto centenário pelo Corinthians.

No Paulistano, do qual fui um dos fundadores, deixavam-me jogar por esse motivo. Tivemos 3 jogadores que se tornaram profissionais: o Nardo, que jogou no Corinthians, no Palmeiras e na Itália, o Diogo, que jogou no Corinthians e no Guarani e o Ferrão, que jogou no Corinthians e no Interior.

Nós nos reuníamos no reservado do ‘Bar Fulgor’, com permissão do bondoso proprietário Sr. Mendes. Às vezes algum gaiato soltava bomba dentro do reservado e lá vinha o Sr. Mendes reclamar comigo. Para encerrar um fato marcante, mais de vinte anos se passaram, um dia parei o carro para comprar pão na luxuosa padaria da Av. Cidade Jardim com a Faria Lima. Enquanto aguardo minha vez, vi o caixa abandonando seu posto e vindo em minha direção. Somente o reconheci quando se aproximou. Era o bondoso e paciente Sr. Mendes, que me deu um forte e emocionante abraço.
Eu senti que aquele abraço não era só para mim, mas para todo Bairro do Brás.