Vou contar uma pequena história. Pequena, porém engrandecida pelas pessoas, sobre as quais eu me refiro. Estas pessoas foram citadas em outra história que foi publicada aqui, por sinal, adorei ler e me deixou curiosa imaginando por onde andariam os componentes dessa tão simpática família do seu Freitas.<br><br>Até onde sei, não estão mais entre nós, o seu Freitas, sua esposa (que não cheguei a conhecer) e seu filho mais velho. Estes, arrisco dizer, estão juntos e felizes em algum lugar muito especial.<br><br>A história é sobre um episódio que aconteceu comigo. O ano: início de 1970. Referência: família do seu Freitas.<br><br>Meu primeiro contato com esta família foi com o filho – para não dizer novamente o mais velho, poderia ser o que nasceu primeiro, ou primogênito, que na época já estava afastado da aviação e, como filho de peixe, também tinha uma queda para os negócios.<br><br>Homem moderno, arrojado, sempre à frente do seu tempo, escolheu um espaço perfeito para montar seu “business” (falando dele essa seria a palavra apropriada). Muitíssimo bem localizado, no final da Avenida Nove de Julho com a Avenidas Europa e Faria Lima, em frente ao recém inaugurado Edifício da Dacon Veículos.<br><br>Próximo também a "casa-bola" do arquiteto Eduardo Longo (detalhe “cool”). Espaço melhor, impossível! E ainda com um detalhe muito prático: era vizinho da sua própria residência.<br><br>Neste espaço, muito bem trabalhado, montou duas lojas. Uma delas, que não me recordo direito, mas acho que era de artigos importados. A outra era uma casa de lanches, mas com um diferencial: não tinha garçons, toda equipe de apoio era feminina. Então, só havia garçonetes no atendimento ao público. E só moças bonitas e simpáticas.<br><br>O padrão da seleção era o mesmo que o das feiras do Anhembi. E eu estava lá! Modéstia à parte, cumprindo todas as exigências da seleção (bons velhos tempos!). Já trabalhando, no final da tarde de um dia qualquer de verão – provavelmente era uma sexta-feira -, tenho o prazer de conhecer (e ponha prazer nisso…) o outro filho do seu Freitas, o nascido em seguida ao primeiro (o segundo, portanto, na escala decrescente). <br><br>Tinha presença marcante: sotaque carioca apesar de ser paulistano, pois há muito tempo morava no Rio (Copacabana, no Posto 6), tinha físico atlético, bronzeado, era charmoso e atraente como todo aeroviário (pelo menos os daquela época…). Assim como seus irmãos, ele também trabalhava em uma companhia aérea e, de quebra, para não negar suas origens, nas horas vagas entre uma escala e outra, comandava uma confecção de roupas femininas que vendia para todo o Brasil. <br><br>Por onde passasse, se tivesse tempo, apresentava o mostruário da sua confecção. Este mostruário veio parar em minhas mãos. Ou melhor, em meu corpo todo, porque eu vestia e vendia. Assim, fui sua representante em São Paulo capital e em algumas outras cidades.<br><br>Agora chegamos ao foco da nossa história…<br><br>A moda do Rio, considerada extravagante, sempre fez muito sucesso em São Paulo. Como eu era representante, quando terminava a época de vendas, as peças do mostruário ficavam disponíveis, algumas, e eu comprava. E foi uma dessas peças o pivô desta história.<br><br>O modelo: um micro vestido. Quem, com 60 anos ou mais, não se lembra dos "micros" curtíssimos daquela época? Em geral vinham acompanhados de calcinha do mesmo tecido, pois se com um movimento brusco ou um vento um pouco mais forte, ela aparecesse, não chamava tanto à atenção. Estes "micros" contrastavam com os "midis" (um pouco abaixo do joelho) e os casacos "máxis" (longos), para serem usados sobre shorts. Lembram?<br><br>Pois bem, o meu micro vestido era de jersey, bege rosado, saia levemente evasê, manga cavada, golinha alta e calcinha do mesmo tecido, é claro!<br><br>O cenário: Praça da Biblioteca com Avenida São Luis e Rua Xavier de Toledo, canto da praça próximo ao calçadão de acesso à Rua 7 de Abril.<br><br>Motivo: fui fazer companhia a uma amiga que precisava pagar uma conta em uma loja da Rua 7 de Abril. Aproveitando a ida, fui à uma escola de idiomas para pegar informações sobre um curso de inglês. Então, marcamos de nos encontrarmos, na volta, na Praça. Fui rapidamente à escola e de lá para o local combinado. Fiquei ali parada como uma estátua, porque se o vestido e o conteúdo parados já chamavam a atenção, em movimento então… E, como estátua foi sendo admirada e assediada.<br><br>Vou abrir aqui um parêntese para explicar melhor o fato: hoje com a expansão dos polos de negócios para os bairros, o centro da cidade já não concentra mais a população dos seus servidores, principalmente a dos pedestres. Os office-boys, que com suas pastinhas embaixo do braço percorriam todas as ruas do centro à pé, iam às matrizes dos bancos e aos escritórios das principais empresas de negócios, eram, em geral, muito jovens, tinham que procurar alguma coisa para se divertir. Uma das suas diversões: era parar e ficar olhando e comentando com um colega, para um determinado lugar, de preferência para o alto, o que aguçava a curiosidade dos transeuntes e em pouco tempo aquilo virava um tumulto. <br><br>Bom, voltando a nossa história… Apesar desta situação provocar um certo pânico, também não deixava de ser excitante. <br>Foram parando os office-boys, os estudantes, os executivos (hora do almoço) e todos que por ali passavam. Foram se aproximando, como feras ceifando a presa, e ao mesmo tempo rolava um ar de alegria e marotagem. Quando percebi, até onde eu conseguia ver, a praça estava lotada de pessoas me observando. Fiquei apavorada. E minha amiga nada de aparecer. <br><br>Aos poucos fui me movimentando, até que consegui caminhar e aquele povo todo resolveu me seguir. Fui andando rumo à Rua Xavier de Toledo, onde me lembrei, havia o escritório de um amigo. Apertei o passo e, em cortejo, todos foram atrás de mim. Por sorte o prédio não ficava muito longe. Quando me aproximei da porta do prédio, entrei correndo, peguei o elevador e quando cheguei, esbaforida, o pessoal me perguntou se eu tinha visto alguma alma do outro mundo. E eu disse: <br>- "que alma do outro mundo, que nada! eu vi foi muita gente viva". Viva… Viva! Viva a vida da gente… E viva a memória, viva!<br><br>Não sei se o tal filho do seu Freitas chegou a saber dessa história na época do acontecimento. Se soube, não sei se ainda se recorda. Se não sabia, ou não se recordava, aqui está e espero que tenha gostado de saber do sucesso do "micro bege rosado" (engraçado que rimou com "mico-leão dourado"). Hoje, um só existe na minha memória e o outro, em risco de extinção, tende a ficar na memória de muitos. Mas, também, só em memórias e histórias.<br><br>E seja lá por onde andam, mando um grande beijo a todos da família do seu Freitas. E agradeço ao Chammas, que os revelou, me dando a oportunidade de ter tão boas recordações.<br><br> <br>E-mail: [email protected]