Eu tinha uns 10 anos; minha mãe vendia roupas e tinha freguesas em vários bairros. Como eu ia com ela fazer compras, voltava invariavelmente de bonde, a partir da Praça João Mendes. Cujo "abrigo de bondes", ainda que descaracterizado, está lá, de pé. Morávamos em Vila Mariana, embora houvesse linhas de ônibus, o bonde era "mais barato". E era preciso economizar. Descíamos no ponto da Domingos de Morais, quase esquina com José Antônio Coelho, em frente à tradicionalíssima e bela "Panificadora ABC" (como esquecer, hein?).
À tarde, hora do rush, tal abrigo ficava superlotado. Todas as linhas que dali saíam nos serviam. Até mesmo o 36 – Avenida Angélica, embora tivéssemos que descer na Paraíso e, dali, caminhar um bocado.
Porém, o bonde que eu "temia" era o 101 – Santo Amaro. Não só porque costumeiramente andava cheio, como, à hora de embarcar, na João Mendes, as pessoas (já) eram afobadas, neuróticas, apressadas. Mal abria a porta dianteira, era aquele turbilhão! E então eu preferia que aguardássemos outras linhas, como o 102 – Indianópolis ou o 103 – Brooklin Paulista, os quais – "auxiliares" do Santo Amaro – iam menos lotados. Eram bondes camarões, mas havia outros (23 – Domingos de Morais e 27 – Vila Mariana), que também serviam, menos cheios. Lembro também de que, à época, a linha 23, que era de carros abertos, tinha também reboques.
Anos depois, quando eu fazia entrega nas ruas, vim a conhecer o verdadeiro "leito ferroviário", que era a singular e bela linha 101, no trajeto além-Biológico. Com paradas designadas por nomes, como "Ypê", "Pedro de Toledo", "Moema", "Piraquara", "Campo Belo", "Volta Redonda" etc. Com sinalização, nos cruzamentos de algumas vias, tal qual linha de trem! E com dois balões de retorno, para os bondes: Indianópolis e Brooklin, como esquecer? Já no largo Treze, um "abrigo", similar ao da Praça João Mendes. Diziam que o 101 "ia até o Socorro". Mas não ia: do largo São Sebastião, descia até perto da margem do rio Pinheiros. Só que ali não era (não é) Socorro. E o 104? Era Santo Amaro – São Judas Tadeu.
A paisagem ao longo dessa linha era duma São Paulo – hoje, naquela região – inimaginável. Até ruas de terra! Casas com enormes quintais, muita vegetação. Fábricas em Indianópolis: "Brindes Pombo", "Barbará"…
Ainda hoje, quando passo pela Domingos de Morais, altura da minúscula Praça Teodoro de Carvalho (em 58, com muitas tipuanas), inevitavelmente me recordo da estação dos bondes, ali situada. Aos sábados à noite, minha mãe me levava para ver os bondes que vinham sendo recolhidos, após árdua jornada de trabalho. Vinham também com letreiros de lugares que eu ainda não conhecia: Ipiranga, Vila Prudente, Fábrica. Para "dormir" com os demais das linhas da região. E eu morria de vontade (nunca concretizada!) de entrar naquele pátio repleto de veículos…
Ocorreu assim: os bondes nasceram Light e morreram CMTC. Deles todos – que eram de vários tipos – hoje só uma pálida lembrança, no Museu dos Transportes Públicos: três bondes, mais uma réplica. E dentre eles, justamente um camarão, daqueles da linha 101! Igualzinho ao último, da última viagem, para o largo Treze, em 1968. Igualzinho ao que, derradeiro, ao retornar à Estação – depois da "cerimônia do adeus" – encerrou a epopéia dos bondes paulistanos. Quando se lhe apagaram as luzes, assim que o condutor baixou – definitivamente! – sua alavanca de contato, do fio. Fim de linha, bonde. Ponto final!
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