Bolachinha de nata

No quintal uma fornalha,

Na cozinha de chão batido,minha mãe amassava as bolachinhas.

Ia no galinheiro, apanhava os ovos, o açúcar cristal do saco a um canto da sala.

Ia ao armário e apanhava a farinha, e nesse tempo não existia supermercado, então, tudo era à granel.

E o fermento era bicarbonato de sódio

Ah! e a manteiga que meu pai fazia, colhendo as natas do leite.

Então a fornalha era acesa, e o crepitar da lenha que estava meio molhada espantava algum bicho que por ventura havia.

E, quando só existiam brasas, já era hora de retirar tudo, cinzas e brasas, e já estava bem quente.

Varria com uma vassourinha e jogava uma folha de palha. Se acendesse, era hora de colocar os biscoitos.

E logo que assava, minha mãe retirava e guardava na lata.

Os biscoitos de polvilho eram a mesma coisa, a gente sentia o cheiro de longe.

E o polvilho minha mãe fazia com aquela paciência que só ela tinha.

E, na hora da partida, minha mãe fazia eu levar uma merenda.

E o trem apitava,

Uma bolachinha eu comia,

E as lágrimas pingavam.

E o trem na curva apitava,

E mais uma bolachinha eu comia.

E quando lá chegava,

No lavatório em baixo da pia,

As bolachinhas eu escondia.

E quando a saudade apertava,

No meu dia a dia,

Eu pro dormitório corria,

E mais uma bolachinha eu comia.

Mas eu economizava,

E, certo dia, enquanto procurava,

A doce bolachinha,

O fungo já esverdeava,

E tristemente no lixo eu jogava,

O resto da saudade.