Manhãs no Ipiranga, Rua da Imprensa, cercanias do histórico monumento, beira do córrego onde o príncipe Dom Pedro, espada em punho, pronunciou o mais famoso "grito" de nossa história. A cada vez que quero conferir, basta andar uns poucos quarteirões para apreciar o quadro de Pedro Américo, no Museu Paulista, reprodução nem tão fiel do evento, mas sim uma composição, segundo afirmam especialistas em história…
A trilha sonora, por conta do Mestre Elomar e o elepê Das Barrancas do Rio Gavião "rodando" na velha, fiel e boa vitrola, embalam telefonemas, envio e recebimento de e-mail, orçamentos e layouts.
Da rua, a buzina desnecessária de apressados e nervosos paulistanos (ah! Se ouvissem Elomar seriam outros), o alto falante no maior decibel possível com a irritante voz do vendedor de produtos de limpeza, do motor barulhento da velha kombi (seria a "kombi sessenta e seis do japonês"?) e da voz também irritante e no maior decibel do comprador de latinhas e garrafas.
O som da campainha (ah! Por que será que a mão é tão pesada? Não basta um simples e rápido toque?) dos vendedores de panos de prato, sacos de lixo, kits de costura que têm sempre o mesmo enredo: "compra pra me ajudar". Trabalhadores "voluntários" de instituições filantrópicas pedindo roupas usadas para os velhinhos e crianças. Por que será que a sede "fica" em lugares da periferia, distante quilômetros e quilômetros do local onde é feito o "pedido de colaboração”?
Ah! Mas a natureza compensa e, para descanso da tela do computador, a árvore em frente à janela está com toda a beleza da primavera e recebe visitas. Uma rápida passagem do silencioso beija-flor antecede o pousar e canto de outros pássaros, que a memória, distante dos tempos bons do interior, não permite identificar pelos nomes.
Batidas de ferro na calçada, os sons chegando mais perto e a memória parece cobrar: e este som? Lembra-se? Barulho de enxadas. Mas como é possível aqui na cidade?
Vou até a janela, peço licença aos pássaros, e a surpresa: são trabalhadores "capinando" os matos das calçadas. Bóias frias urbanos uniformizados, luvas e botas de proteção para atender às exigências da cidade mais rica do país.
Diferente das condições de trabalho vividas por um dos "capinadores urbanos", o senhor Evantuilo, nascido em Tauá, Ceará, onde foi trabalhador rural por muitos anos, que veio para o sul maravilha em busca de melhores condições de vida e, por "mãos do destino", continuou na roça urbana.
O capataz de ontem, e ainda hoje existente nos nossos interiores, e aqui na cidade chamado de encarregado, também originário da terrinha, não permite muita conversa e ordena o continuar da lida.
O dever me chama, outro elepê na vitrola, a árvore e os pássaros como companhia da lembrança dos dias a capinar, ou "carpir", a parada rápida pra água, que era trazida em uma moringa por um menino, pois a parada maior só era permitida para o almoço à sombra de uma árvore. A marmita era preparada de madrugada pela mãe e a bóia era fria.
Os sertões são os mesmos no "país real, distante do país oficial", como sempre diz o outro grande mestre Ariano Suassuna.
Nada pode ser tão paulistano e só aqui pode ser tão brasileiro.
Obs.: texto originalmente publicado no blog sertaopaulistano.blogspot.com
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