Os sonhos, as fantasias, ainda me acompanham

Nunca deixei de sonhar: "Um dia serei um famoso tenor lírico!". O tempo passou, continua passando, mas a minha esperança é imorredoura.

Quando alguém perguntava a minha finada e saudosa mãe há quanto tempo eu cantava, ela respondia que era desde quando eu estava sendo gerado: ela cantarolava e eu, do seu ventre, fazia o contra canto. Eu acho um exagero, mas quem era eu para desmenti-la?

Eu descendo de portugueses e italianos. Fui criado no bairro do Bixiga, no meio de italianos e oriundi.

Freqüentei cinco anos de primário em escola italiana, e lá aprendi o idioma. Todas as escolas na época dispunham do curso de canto orfeônico, onde se aprendia a cantar os hinos pátrios e outros próprios para a idade, bem diferente de hoje. Estou me referindo aos anos 30 a 50, e quem possuía rádio, na ocasião, era gente de posse. Os italianos, a maioria, apreciavam as músicas italianas, óperas, operetas e canzonetas nas vozes dos famosos Carlo Butti, Tito Schippa, Beneamino Gigli, Luciano Serra etc. Dentre os brasileiros, apreciavam Francisco Alves, Orlando Silva, Gilberto Alves, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Carmen Miranda, Nelson Gonçalves e outros.

Os influenciados pelo cinema apreciavam Carlos Gardel, Hugo Del Carril, Pedro Vargas, Libertad Lamarque, Jose Mojica, Pedro Infante, Tito Guizar, Jorge Infante, Bing Crosby, Jeanette MacDonald, Nelson Edy, e tantos outros.

Fui coroinha, cantor solista do coro da igreja de Nossa Senhora Achiropita. A missa e outras cerimônias eram celebradas em latim, inclusive a maioria dos cantos.

Em março de 1942 comecei a freqüentar a escola noturna do Colégio São Luiz. Ali me inscrevi para cantar no coral e passei a ser cantor-solista, inclusive do teatro, junto com o colega Othoniel Russo, a pedido do maestro Miguel Arquerons e do irmão Pereira. Meu apelido no colégio era "Foguinho" (devido à cor de fogo dos meus cabelos, batizado pelo professor Silvio Barberi). O apelido do Othoniel era "Nezinho", também batizado pelo mesmo professor.

Por mais de oito anos nós fomos solistas. Houve um tempo em que o maestro Arquerons foi substituído pelo atual maestro Diogo Pacheco, irmão do famoso Assis Pacheco, tenor do Teatro Municipal de São Paulo.

Quando completei catorze anos, fui obrigado a extrair cirurgicamente as amídalas e adenóides. Aconselhado pelo maestro Arquerons, fiquei um bom tempo sem cantar, pois estava em fase de mudança de timbre e, assim, precisava preservar a qualidade vocal.

Em 1951, ao terminar o curso no colégio, comecei a procurar um professor de piano. Encontrei a profa. Dirce Sacco, no Bixiga, na Rua São Vicente com a Santo Antonio, e lá estive por um tempo e tive grande progresso.

Em 1952, busquei e encontrei um grande professor de canto, italiano, recém-chegado ao Brasil, de nome Anselmo Peri, dono de uma excelente voz de tenor-dramático, assistido pela sua aluna de canto e pianista Rosiris Nogueira Castor. O local era na Rua Frei Caneca, quase esquina com a Rua Peixoto Gomide, no bairro da Bela Vista, perto de minha residência (Rua Herculano de Freitas).

Nesta escola de canto era adotado o sistema que o "maestro" Anselmo Peri denominava "escola de Enrico Caruso".

Antes de iniciar o curso, passei por um teste vocal, e por meio de vocalizes fui aprovado e classificado como tenor lírico ligeiro, ou seja, minha voz era leve e mais aguda, equivalente à voz de Tito Schippa, Ferruccio Tagliavini, Beniamino Gigli, Bruno Lazzarini e outros famosos da época.

Precisava ser lapidada e, para o repertório lírico, submeter-se à impostação vocal. Primeiramente aprender como usar o apoio diafragmático e tirar o melhor proveito disso. A garganta deveria ser usada apenas como passagem do ar, a voz arremessada para a máscara i.é, palato, nariz, testa, faces. Para que a emissão da voz não fosse gutural, durante certo período os exercícios (vocalize, escalas) eram praticados de forma nasal, forçando a abertura de cavidades musculares que com o tempo funcionariam como amplificadores da voz. Os ossos do corpo passariam a vibrar e, terminada a fase de aprendizado, a emissão da voz tornava-se brilhante, segura, vibrante e natural. O "maestro" dizia que "La emissione de la voce deve essere comme un sbadiglio" (a emissão da voz deve ser igual a um bocejo), sem esforço e de modo natural. Eu consegui chegar lá com sucesso.

Dentre os colegas vou citar os seguintes: Rosiris Nogueira Castor (nome de solteira), e mais tarde Rosiris Del Bianco (nome de casada), excelente soprano ligeiro, com a qual cantei e gravei vários duetos ("La traviata", "Don Pasquale", “L'Elisir d'amoré", "L'Amico Fritz"); a Adele Martuscelli, belíssima voz de soprano-lírico spinto (gravei um dueto de La Traviata); Clarinda, soprano-dramático; Claudio Wenderlich, tenor; Arlindo Delgado, tenor; Roberto Silva, tenor; Eugenio Santos, tenor; Pitere, barítono; Marcos Schaeffler, barítono; Wilson Carrara, baixo; Nicola Pellegrini, tenor; Milton, tenor ligeiro; Guilherme Toscano, belíssima voz de barítono; e outros.

Nessa época conheci o maestro do coral lírico do municipal, Sisto Mechetti, e seu filho, Marcelo (substituto do pai após seu falecimento) no coral lírico do municipal. Fui acompanhado por ambos, e o que mais me impressionava era o fato deles transformarem o piano numa orquestra. Atualmente, o maestro Marcelo Mechetti acompanha os profissionais da área nos ensaios e etc.

Em 1955, apaixonado loucamente por uma colega da escola de canto, passei a freqüentar a Paróquia de Nossa Senhora da Saúde, da Vila Mariana (Rua Domingos de Morais), e por vários anos fui solista do coral organizado pelo pianista e organista Clovis Vincent, que mais tarde passou a ser meu professor de piano. Freqüentei sua residência no Bosque da Saúde e, posteriormente, à noite, após o jantar, ele vinha a minha residência para ensaios e preparação do repertório lírico e clássico.

Uma certa manhã, enquanto eu cantava "Cor dulci, cor amabile" (o coro ficava próximo ao campanário da igreja, havia uma escadaria espiralada e extensa, de tirar o fôlego da gente), chegou uma senhora de nome Tatiana, esposa do maestro Martin Braunwieser, titular e responsável pelo coral "Sociedade Bach de São Paulo", e disse-me: “Gostei muito de sua voz, preciso dela para o nosso coral, aqui está o endereço da minha residência, onde pretendo preparar e ensaiar o senhor!”.

Fui aprovado por ela e, depois disso, comecei a freqüentar os ensaios na PUC, à Rua Marquês de Paranaguá, uma travessa da Rua Augusta.

A minha primeira apresentação com esse coral aconteceu na igreja Nossa Senhora Auxiliadora, que ficava à Rua Três Rios, 75, no Bom Retiro. O organista foi o famoso Ângelo Camin; o primeiro oboísta era o atual maestro Isaac Karabtchevsky; os demais instrumentistas faziam parte da orquestra sinfônica municipal.

Em 1957, o maestro Túlio Colacioppo havia regressado ao Brasil, após ter vencido um concurso internacional. Não sei dizer como e porque, mas o meu professor de canto, Anselmo Peri, e eu, um soprano dramático e um barítono, fomos convidados para participar dos ensaios e preparação da ópera Il Trovatore, de Giuseppe Verdi, que eram efetuados no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, da Avenida São João. O Anselmo Peri seria o tenor principal, eu seria o tenor comprimário e etc.

Tudo caminhava a contento, mas, infelizmente, aconteceu que o Anselmo Peri foi acometido por um mal súbito, e os exames acusaram que ele estava com um câncer generalizado, que afetou seus intestinos, pulmões etc. Em menos de uma semana, ou seja, no dia de seu aniversário natalício, 3 de maio de 1957, faleceu.

Com isto, a escola de canto ficou fechada por um bom tempo, e tudo mais, paralisado. O acontecimento era tão dramático que parecia que o mundo desabara sobre as nossas cabeças. A Rosiris foi quem mais sofreu: ela tinha um compromisso com o falecido, estavam noivos.

Depois de sua volta da Itália, onde ela havia mantido contato com os familiares do falecido, assumiu e reiniciou o ensino de canto para os poucos alunos que restaram, inclusive eu, e alguns anos após, casou-se e assumiu outras responsabilidades, deixando de lecionar.

Em agosto de 1997, ou seja, mais de quarenta anos passados, eu a descobri: ela ficou viúva, tinha um filho de nome Ricardo, de vinte e poucos anos, voltara a ensinar canto, adotara o nome de casada Rosiris Del Bianco. Era próximo a minha residência atual da Vila Olímpia, i.é, no Brooklin, Rua Geórgia.

Eu deixei o meu último emprego no dia 10 de agosto de 1997. Estava com muita saudade dos velhos tempos. Consegui contato com ela imediatamente e voltei a ter aulas de canto. Eu já estava com 66 anos de idade, ela também.

Na primeira aula ela comentou na frente dos novos colegas que a minha voz estava madura e melhor do que antes. Eu estava muito feliz, e sempre que iniciava a minha aula, a sua cadelinha de nome Liu deitava-se aos meus pés, e lá permanecia até o fim das aulas. Então ela me disse: "Zezinho! Ela gostou da sua voz! Quando ela não gosta, ela sai de mansinho e vai para o quintal!".

Mas tudo o que é bom logo se acaba, e mais uma vez o destino foi ingrato para conosco: um mês e meio depois, a Rosiris adoeceu, foi hospitalizada, e faleceu no dia 31 de outubro de 1997.

Quando me mudei da Bela Vista para a Vila Nova Conceição, passei a freqüentar a Igreja de São Dimas, onde o padre Arnaldo era o vigário (ex-deputado) e, além de contribuir com as obras, fui solista durante dez anos.

Em outubro de 1968, mudamos para a Vila Olímpia, e passamos a participar da Igreja Divino Salvador. O vigário era o padre Bruno Turato, grande músico e compositor. Fui solista nas missas e outras celebrações e participei das representações teatrais das suas operetas.

Há mais de vinte anos, quando minha mãe adoeceu, eu e meu saudoso pai começamos a participar das missas na Igreja Nossa Senhora da Esperança, na Avenida dos Eucaliptos com a Alameda Jauaperi, Moema. O pároco era o padre Zanella. O também saudoso senhor Roberto de Souza Freitas era o organista, e sua esposa era a cantora solista. Ambos convidaram-me para solista das cerimônias, e ainda hoje lá permaneço, participando de quase todos os eventos e cerimônias.

O pároco atual é o Cônego Dagoberto Boin. O padre Juan Manuel foi companheiro do padre Boin durante muitos anos, e dizia aos fiéis "Em ação de graças, agora, vamos ouvir o nosso querido solista José cantar aquela "Ave Maria" que só ele sabe cantar!".

Eu comecei cantando aos seis anos de idade, i.é., em 1937, e nunca mais parei. Faz 71 anos que comecei! Já cantei em tantos casamentos, bodas, batizados, eventos, missas, ordenações sacerdotais, aniversários, tardes culturais, crismas e inclusive em teatros, como Paulo Eiró, João Caetano, Santana (já não mais existe). Já perdi a conta, porém ainda o faço com muito prazer. O canto é a minha vida!

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