Bilhetes de loteria

A loteria no Brasil vem de muito tempo. Há coisa de cem anos atrás fazia parte de uma empresa particular. Sob licença do governo, é lógico. Mas sempre tinha aquele negócio de que havia marmelada ou coisa parecida. Aliás, nos dias de hoje ainda tem-se essa desconfiança. A partir do início dos anos 1960, o governo encampou a loteria para dar mais confiabilidade.<br>Tinha certas manias que faziam alguém comprar bilhetes que correspondiam a um bicho da tabela do Barão que inventou o jogo do bicho no Rio de Janeiro para dar o que comer aos animais do zoológico que ele era proprietário. A vaca era um dos preferidos do povo, cachorro no mês de agosto, coelho na época da páscoa… Eram os bilhetes que mais se vendiam segundo os responsáveis por casas lotéricas do centro da cidade. Um dos bilhetes que era difícil de vender era os que tinham os finais de 93, 94, 95 e 96, que faziam parte do grupo 24, que é o grupo do veado. Puro machismo. Conheci gente que tinha o palpite no veado e mandava a mulher ou uma criança na casa lotérica comprar. Números desprezados eram os que tinham muitos algarismos iguais. Nos anos dourados da Loteria Federal, quase ninguém comprava bilhetes "difíceis", como o 5.555, que no Grande Prêmio de Natal de 1943 encalhou numa loja do concessionário lotérico Ricardo Fasanello. Foi premiado no primeiro prêmio. Aquele bilhete encalhado desencalhou de muitas dívidas que tinha o dono da casa lotérica, através de outros negócios.<br>Eu sempre fui um pé frio para qualquer tipo de jogo ou sorteio. Na véspera do meu aniversário de 4 de maio de 1966, passava pela Avenida São João quando um bilheteiro me ofereceu um gasparino. Era um dos poucos que tinha a mão. Nunca fui muito de comprar bilhetes de loteria, mas pensei, quem sabe o destino vai me dar um prêmio de aniversário amanhã. O sorteio era às 14 horas de todas as quartas e sábados. Segundo Omar Cardoso, quarta feira era um dia de sorte para quem era do signo de touro.<br>Dizia ele. Touro: nascidos de 21 de abril a 20 de maio. Você é um teimoso. Fala alto, tem voz firme, não consegue baixar seu tom alto. Come muito, vai ficar barrigudo. Quarta feira é seu dia de sorte, para rifas e sorteio de loterias. Pensando nos ensinamentos de Omar Cardoso resolvi comprar um bilhete. Afinal era o dia do meu aniversário, justo numa quarta feira. <br>O bilheteiro andarilho de origem italiana pediu para que escolhesse um número. Pedi para ele dar qualquer um. O gasparino que comprei tinha o numero 07.493. Sim, veado.<br>Estava trabalhando quando veio a hora do sorteio. Ricardo Dias, um argentino que narrava os sorteios pela Rádio Piratininga estava “embronhando” em falar muito de Gardel, Lepera e de Gardelófilos. Então resolvi mudar de estação e passei a ouvir o Daniel Paulo, e o Colombo Barbosa, seu colega de sorteio de todas as emissoras para onde ia. Estavam na Tupi, sempre sob os auspícios do vinho Chapinha de Jundiaí.<br>O sorteio era alternado entre pequenos e grandes prêmios. Quem fazia o sorteio eram as crianças de uma casa que abrigava órfãos. A própria criança, geralmente uma menina, era quem cantava a bolinha sorteada. Ouvia–se a voz dela: vinte cinco mil, quinhentos e quatorzeeeeee. Cinco mil cruzeirossss. Onze mil, oitocentos e vinteeeee. Um mil cruzeiros.<br>Sete mil, quatrocentos e três. Seis milhões de cruzeiros! Dei um pulo da cadeira. Gritei a todos os pulmões. Ganhei na Loteriaaaa. Quando peguei o bilhete para conferir, vi que meu bilhete era sete mil quatrocentos e noventa e três. Errei somente o penúltimo número. Deu quando muito, troca de bilhete.<br>Até hoje tenho esse número na garganta. Nunca mais o vi em qualquer casa lotérica por onde passo. Se vir novamente esse bilhete, vou comprar. Por mais duas vezes errei no último algarismo da loteria federal. Omar Cardoso tinha razão. Realmente Touro é um teimoso.<br><br>e-mail do autor: [email protected]