Baratas

Barata é um inseto que existe desde tempos remotos, fósseis de 200 milhões de anos já foram encontrados. Estão catalogadas mais de 5 mil espécies de barata. No Brasil há mais de mil espécies. Só não é possível encontrar baratas nas calotas polares (salvo em mochilas de exploradores desavisados). Curiosamente das 5 mil espécies só 1 % são consideradas pragas urbanas.

No Brasil a espécie mais comum é a Periplaneta Americana (Barata Americana) que, apesar do nome, tem sua origem na África. Podem viver até um mês sem água e vários dias sem a cabeça. Uma barata vive cerca de seis meses e pode deixar até 800 descendentes. São onívoras, comem de tudo, inclusive pele ou secreções nasais de pessoas dormindo. São responsáveis pela transmissão de 32 doenças por bactérias, 17 por fungos, três por protozoários e duas por vírus, entre elas, cólera, peste, febre tifóide, herpes, poliomielite. Existiam na terra muito antes dos humanos e, provavelmente, existirão por muitos anos depois que nossa espécie se extinguir.

Feita a introdução científica passemos para os fatos cotidianos. Tenho medo de barata, isso mesmo, medo. Um dia cruzei com uma enorme aranha caranguejeira em uma estrada de terra no litoral e quase não contive a vontade de pegá-la nas mãos, Já com uma simples barata a história é diferente. Se uma cruza o meu caminho estanco e sinto um frio na espinha, talvez seja a mesma sensação da presa ante o predador. De onde vem esse medo? Pesquisei muito e a conclusão mais plausível a que cheguei tem relação com nossos primórdios pré-históricos nas cavernas. Nesses tempos, nada mais desagradável e aterrorizante do que ser comido vivo por um inseto em meio à escuridão. Buscar explicações ancestrais para uma paúra do presente é tentar fugir da raia, concordo. Explicações à parte, o fato é que uma barata me põe para correr mais facilmente que, guardadas as devidas proporções, um bando de elefantes africanos enlouquecidos. Mesmo porque ainda não tive a oportunidade de ir à África e muito menos de topar com uma manada de elefantes. Pois bem, o fato de vivermos em uma megalópole com farta produção de resíduos orgânicos para alimentar hordas de baratas é uma preocupação constante para pessoas como eu. Principalmente se levarmos em consideração que para cada barata visível há, ao menos, mil escondidas.

Histórias com baratas, tenho muitas e relato a seguir duas delas que não deixarão dúvidas do terror que elas me proporcionam.

Em meados dos anos 80, eu cursava administração de empresas na Universidade São Judas na Mooca que, naquela época, ainda não funcionava nos modernos prédios atuais. A universidade se espalhava por grandes galpões na Rua dos Trilhos. Eu deixava meu carro, uma Brasília, no estacionamento também instalado em um galpão contíguo a universidade e que era administrado pelo alemão. Eu chegava sempre em cima da hora e o alemão se encarregava de estacionar a brasa para mim. Ao final de um dia de aula entrei no estacionamento tentando localizar onde estava estacionada a Brasília e de longe percebi uma mancha preta em seu para-brisas. Alemão tinha deixado a janela aberta e uma “gigantesca” barata voadora estava placidamente repousando no para-brisas pelo lado de dentro do carro.

Reunindo toda a minha coragem gritei pedindo para o alemão tirar o “monstro” de dentro do carro. Ele bem que tentou, mas ela correu e se escondeu debaixo dos bancos. Em pânico pensei em deixar a brasa por lá e pegar um ônibus, mas uma força maior, que eu nem sabia que tinha, me encorajou a entrar no veículo e sair em disparada. Se Bernie Ecclestone tivesse me visto voando baixo pelas ruas da Mooca naquele dia, hoje com certeza eu seria uma lenda da fórmula um. Fiz o trajeto de cerca de 8 km entre a universidade e minha casa no Ipiranga em menos de dez minutos, dirigindo com as pontas dos dedos e sentindo a horrível sensação de que a barata já estava subindo pelas minhas pernas. Cheguei à porta do meu prédio em alta velocidade e estacionei com um cavalo de pau, abrindo a porta do carro e me jogando instantaneamente na calçada. O porteiro do prédio levou um baita susto e correu em minha direção enquanto eu gritava:

– “Barata.”

Não é que o cearense arretado abriu um sorriso sem graça e me deixou no meio da calçada com cara de bobo. Amarelou e saiu de fininho. Corri ao apartamento peguei um aerossol e despejei o conteúdo inteiro na Brasília e fui dormir. No dia seguinte, com o sol a pino, abri a porta da Brasília e no assoalho jazia o “monstro” de três cm de pernas para o ar ao lado dos cadáveres de alguns mosquitos e uma mariposa.

Em 2002 comemoramos o primeiro aniversário de meu único filho com uma festa caprichada em um buffet infantil. Voltando para casa após a festa, entusiasmado, meu filho queria abrir a montanha de presentes que ganhara. Ao abrirmos um dos primeiros pacotes, uma grande caixa, os olhos dele brilharam ao se depararem com um brinquedo importado muito legal da marca Matchbox composto por carrinhos metálicos e uma base plástica cheia de rampas e sistemas de abertura de portas e compartimentos. A caixa era daquele tipo com abertura frontal para o comprador poder ver e sentir o brinquedo antes da compra e era aí que morava o perigo. Ao tentar abrir a caixa pequenos dejetos de barata caíram pela abertura e minha esposa disse no ato:

– “Tem barata aí dentro.”

Gelei e já me preparava para jogar a caixa fora quando meu filho começou a chorar e minha esposa, tentando amenizar a situação, falou que era “só” tirar a barata, lavar bem e esterilizar o brinquedo. Com o dever de pai e a hombridade de marido em jogo peguei a caixa nas pontas dos dedos, me armei com uma garrafa pet vazia de guaraná dois litros e fui para a escadaria do prédio. Fechei as portas corta-fogo e, suando frio, comecei a abrir a caixa quando cai de dentro uma enorme barata que corre em direção aos meus pés. Usain Bolt não acreditaria na velocidade com que consegui descer dois lances de escada. Não, não podia desistir, voltei pé ante pé com a garrafa pet cravada entre os dedos. A barata facilitou as coisas ficando estática no chão. Bati nela com tanta força que a explosão que se seguiu lançou resíduos de barata por toda parte. Cantando vitória peguei a caixa e, nisso, mais duas baratas caíram no chão. Em um acesso de pânico, medo, fúria e nem sei mais o que, saí dando garrafadas nas baratas, nas portas, degraus, paredes, fazendo tanto barulho (incluindo gritos constrangedores) que dois vizinhos do andar irromperam na escada estupefatos para ver o que estava acontecendo. Nem precisaria dizer que até hoje evito entrar com eles no elevador e só me atrevo a cumprimentá-los rapidamente por questão de educação. Quanto ao brinquedo, foi muito bem lavado com água fervente e ficou dias imerso em uma solução esterilizante com hipoclorito de sódio até que fosse liberado para meu filho poder brincar. Na primeira oportunidade foi para o lixo.