Banho de cidadania

Enquanto mostro fotos aos meus netos da adolescência de seu pai, confesso ser o meu interesse maior do que o deles, me deparo com uma que me trouxe muitas lembranças. Nunca fomos aficcionados por futebol. Na época, para a juventude, o volly fazia sucesso, mesmo porque tais aulas eram dadas na escola aos meus filhos pelo professor José Roberto Guimarães, atual técnico da seleção feminina, no Colégio Magno da Avenida Washington Luís. Mas ainda assim, pretextando assistir à Copa do Mundo na Espanha e vestidos do sentimento patriótico, além de usarmos jaquetas promocionais elaboradas pelo departamento paulistano das Tintas Ypiranga, traje que fazia muito sucesso por onde passávamos, fomos nós quatro para a Europa sem prazo para volta.
Como terminou prematuramente para os brasileiros, saímos pelo Velho Mundo sem lenço, porém com documentos, e eis que levamos um banho de cidadania: estávamos num dia frio e chuvoso sentados numa mureta de uma deserta praia belga, comparando as praias do litoral Norte de São Paulo com aquela, o que por si só já era uma covardia, quando avistamos um vulto ao longe. A pessoa foi se aproximando e ao nosso lado se abaixou e pegou uma embalagem de sorvete que estava no chão, nos encarou e jogou o invólucro numa lixeira. Como não temos o hábito de tomar sorvete no frio e como não tínhamos sido nós que jogamos a embalagem fora, nem sequer notamos o referido papel. Foi necessário que um estranho, numa praia deserta, nos olhasse nos olhos para nos lembrar de nossa obrigação como habitantes do planeta. As jaquetas nos identificaram. Éramos brasileiros!

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