Balada para um louco

Na fila do caixa do mercadinho, ouvimos os gritos: <br>- “Pois o que eu quero é que você morra!”<br><br> Tudo isto porque, quando a mulher levara a mão ao coração, uma senhora perguntou o que ela estava sentindo. E recebeu esse tresloucado berro como resposta.<br><br>Viramos, e vimos que a desvairada era uma velha conhecida, pelo menos de vista. É moradora de uma estranha casinha em uma importante via do Brooklin, casa que uma vez me inspirou, por seu aspecto e de seus habitantes, a escrever "A Voz da Lua".<br><br>Tinha dito então que era gente pacífica, que não incomodava ninguém. E realmente, vimos essa senhora, meio mal ajambrada, conversando tranquilamente com outras locais. Uma vez, ao nos ver passar de mãos dadas, comentou:<br>- “Como é lindo o amor”. E acho que não era ironia…<br><br>Mas desta vez ela estava atacada. Possuída, como dizem alguns. Mal vestida, de sandálias havaianas, cabelo à moda Joãozinho. Avançou mercado adentro, em passos rápidos, e ouvimos mais gritos. As pessoas se entreolhavam, embaraçadas. Logo passa rapidamente por nós e sai, sem nada levar de compras.<br><br>Enquanto embarcávamos os pacotes, no estacionamento, ouvimos mais gritos, lá fora, a plenos pulmões. Já aí, a Lua não tem nenhuma culpa; é loucura no duro. Que tristeza constatar a fragilidade do cérebro humano, sujeito a impulsos elétricos e cargas químicas, que, minimamente alteradas, provocam a alucinação.<br><br>Certa vez um terapeuta afirmou-me que o maior medo humano é, depois da morte, a loucura. Ou seja, a morte da razão, para mim bem pior do que a primeira, e da qual a pessoa não se dá conta; para ela os loucos são os outros.<br><br>Outro personagem local, rapaz de boa aparência- e segundo contaram, de boa família- vivia também por ali, jogado pelas calçadas da Avenida José Antonio dos Santos, ex Avenida Central do Brooklin. Ás vezes, bem vestido, casaco de couro, óculos “Ray Ban”, parecendo um astro de rock, mas logo em seguida estava sujo, barbudo, esfarrapado e falando sozinho.<br><br>Disseram-me que sua família morava ali por perto, e seu grande problema foi o uso de entorpecentes, mas parece-me ser caso bem mais sério, como a senhora do princípio do texto.<br><br>Por ali esteve, comovendo a todos, por vários anos. Uma só vez, educadamente, pediu-me um trocado, e apressei-me em atendê-lo. Mas agora sumiu, há muito não vemos sua triste figura. Estará internado, terá morrido?<br><br>Louco, louco, louco, louco, canta a balada de Piazzola. Mas isto, mais que um tango, dá tristeza, vergonha, horror de pertencer à raça humana, ver seus absurdos e como são tratados esses infelizes pela sociedade. Sem esperança de assistência, nem recuperação.<br><br>Então, só mesmo saindo de trás de uma árvore, com uma bandeirinha de táxi livre no chapéu coco de Carlitos e declarar:<br>- “Yo sé que estoy piantao, piantao, piantao… No vés que vá la Luna volando por Callao?”<br><br><br>E-mail: [email protected]