Balada para os catadores de papel

Eu sou só mais um filho de São Miguel<br>Eu sou o Zé catador de papel<br>E muitos me chamam de Zé Ninguém<br>Talvez porque eu ando sempre sem<br>Sem nada que me faça mudar de vida<br>Nem uma perspectiva<br>Que me valha ver o sol, como também<br>Olhar um olho em cem<br>E que me faça nele me sentir alguém<br><br>E todos me dizem<br>Que o trabalho dignifica<br>Que nele o homem edifica<br>Com orgulho a sua razão<br>É, mas nem assim me alivia<br>Pois sinto que a demagogia<br>Não cabe na palma da mão<br><br>Ainda que me tratem por irmão<br>Estando ou não ligado pela fé<br>Não há um que olhe para o chão<br>Principalmente o chão que pisa Zé<br><br>O Zé catador de papel<br>Seguindo atrelado à sua carroça<br>O Zé que não paga aluguel<br>Sente saudades da sua palhoça<br>O Zé que passeia pelo céu<br>Quando avista moça tão formosa<br>O Zé que acredita em laurel<br><br>E espera que uma alma caridosa<br>Um dia ainda me chame pelo nome<br>Ah! JOSÉ!<br>Apenas, que me chame pelo nome<br>José!<br>Talvez minha vida não fosse como ela é…<br>Pois é…<br>