É noite, está frio lá fora, todos aqui de casa já se recolheram; fecho os olhos e começo a relembrar a época em que era solteiro, na década de 50, em alguns dias da semana eu e mais alguns amigos costumávamos frequentar o Táxi Dancing Avenida, esse salão ficava na Av. Rio Branco esquina com a Rua Aurora. A parte musical ficava por conta da orquestra do maestro Silvio Mazucca e do conjunto de Tobias Troizi, cada um deles tocavam músicas por uma hora.
Ao entrar recebíamos um cartão com 60 quadrinhos, cada um representava um minuto e ao terminar a contradança a dama levava esse cartão a um fiscal que picotava o quadrinho correspondente aos minutos que tínhamos dançado, cada minuto na época custava Cr$1.
Uma noite chegamos lá por volta das 23h, a orquestra estava saindo e estava entrando o conjunto do Tobias Troizi com uma seleção de boleros, ainda me lembro de alguns cujos trechos seguem abaixo:
“Angústia, de no tenerte a ti
Tormento de no tener tu amor
Angústia de no besarte mas
Angústia de no escuchar tu voz”
Os pares rodopiando pelo salão, rostos colados, sussurros…
“Pintor nascido en mi tierra
Con el pincel extranjero
Pintor que sigues el rumbo
De tantos pintores viejos”
No teto um globo espelhado lança sobre a pista gotas coloridas…
“Abrazame asi
Que esta noche yo quiero sentir
De tu pecho el inquieto latir
Quando estás a mi lado”
Lá está ela, de vestido de veludo negro, modelo tomara-que-caia…
“Acaso fue castigo de Dios
Que te fueras asi para nunca volver
Frio en el alma desde que tú te fuiste
Sombras y angústias sobre mi corazón”
Entro na pista e convido-a para dançar, o conjunto continua…
“Yo no se si és prohibido
Si no tiene perdón
Si me lleva al abismo
Solo se que és amor”
Dançamos por alguns minutos, conversamos um pouco, mas precisamos parar, pois o dinheiro era “curto”. Quem era ela? Isto fica para o próximo relato, pois o sono vem chegando e a saudade também.
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