A FEI – Faculdade de Engenharia Industrial, nos anos 60, fazia parte da PUC-SP. Foi idealizada pelo Pe. Saboia de Medeiros, que com muitos esforços e competência também fundou a ESAN. Ambas localizadas na Rua São Joaquim, bairro da Liberdade, e posteriormente ampliadas para o Campus de São Bernardo do Campo.
Após sofrer o meu próprio trote, aliás, foram vários, pois passei em mais de uma faculdade de Engenharia. Foram tradicionais: corte de cabelo, pintura no rosto, ter que recolher dinheiro nos faróis de São Paulo (para a festa de confraternização) e o uso do "babador" em forma de ferradura, que ficava pendurado no pescoço dos "bichos" (calouros) até o dia 13 de Maio do primeiro ano (data comemorativa da libertação dos escravos). Neste babador, além da menção de bicho, estava estampado o nosso nome (identificação), ou melhor, apelido, que perduraria para sempre. Nomes como Jacaré, Passarinho, Cria, Ferro, Maniglia, Luyten, Lima Bicheiro, Renatinho, Bragança, etc., nasceram naquele babador.
A gente sofria o trote no primeiro ano, mais tínhamos mais quatro anos para aplicá-lo. Decidi praticar um trote diferente para integrar os novos colegas: a aula trote. No início do ano letivo, os calouros vinham sequiosos para terem aulas, os professores nem tanto, o que abriu uma brecha para mim de "substituí-los" com classe.
O modo de praticá-lo era simples: os meus colegas de turma e outros veteranos faziam o papel de "dependentes", ou melhor dito, de "repetentes na matéria" e ocupavam todo o anfiteatro, obrigando os bichos a se "ajeitarem" da melhor forma possível. Enquanto a aula não começava, os veteranos aterrorizavam os calouros e se queixavam do professor e da matéria difícil, que deixaram alguns sem formatura ou já na terceira tentativa. Deixavam os bichos cientes de que o professor era de aparência jovem, mas muito severo e conceituado.
A aula trote começava invariavelmente com um longo sermão, lembrando os presentes da importância do engenheiro na sociedade e para a indústria. Na lousa, escrito a giz, eram demonstrados os índices de reprovação na matéria, que sempre beirava os 90% e eu, professor, insistia em atingir a perfeição (100%).
Uma longa lista de material a ser adquirido pelos alunos (bússola, teodolito, kit de química, régua de cálculo, livros e mais livros: todos em inglês e russo, bíblia, terço, etc.).
Um teste de aptidão para cursar a matéria/cadeira era aplicado, para todos resolverem em 10 minutos (impossível de resolver é claro!), mas que os "veteranos" entregavam em poucos minutos, deixando os "bichos" em pânico e perdidos.
Na revisão da matéria que vinha na sequência, era provado entre outros: a "Teoria das Constantes Variáveis", "O Conceito de Vetor Polar – sempre dirigido para o Norte", e "O Novo Parafuso que dispensa a Rosca", "A Estabilidade das Pontes Instáveis". Tudo na "maior seriedade", e "colaboração dos veteranos". Uma das melhores foi a aula de Filosofia, vestindo a batina emprestada de um padre jovem e moderno que fazia parte da direção, que chegou inclusive a assistir a aula e se divertiu a beça.
No final da aula, quando os "calouros" descobriam o trote que haviam levado, tudo terminava em risadas e alívio geral. Confesso que tive alguns problemas com a Diretoria da Faculdade, pois na sequência de uma das aulas trote, um professor de verdade fora vaiado pelos calouros que até jogaram giz no dito mestre. Ainda bem que eu já tinha sido aprovado na matéria dele. Passei a informar a partir daquela data de que a aula na sequência era "séria", mas que deixou mesmo assim algumas dúvidas.
E-mail: [email protected]