Essa é uma lembrança de infância e uma genealogia de parte da família. Pena que eu não tenha fotos para comprovar, mas a história é assim. Quando meus avós, pais da minha mãe chegaram a São Paulo no começo da década de 1950, vindos do interior do estado, eles foram morar em uma rua chamada Cipriano Barata, pertinho do Parque do Ipiranga.
Antes disso, meu avô, o Sr. Odmur Simões de Oliveira, nascido e criado em uma fazenda em Itapira, viera à capital para estudar, morando em uma pensão do centro e jogando futebol aos finais de semana. Formou-se em Engenharia Elétrica pelo Mackenzie, voltou para o interior, conheceu minha avó e casou-se com ela. Mudou-se para o Rio Claro e lá nasceu minha mãe e só então vieram para São Paulo, os três.
Na Rua Cipriano Barata tinham como vizinhos uma família russa, fugidos das perseguições do “camarada” Stalin. A família era grande, com o dedushka, ou avô, a babusha, ou avó, e depois a filharada e os netos. Eu não conheci nenhum deles, obviamente, mas lembro-me das histórias contadas pela minha avó sobre os tempos da Cipriano. A velha era uma exímia contadora de causos, e hoje eu tenho alguns deles na cabeça como se fossem minhas próprias lembranças.
Tem a história dos convites para a sauna. A família tinha uma sauna em casa, costume russo secular, e todos ficavam sentados nos bancos de madeira, com muita água aquecida por pedras quentes, quase incandescentes. E todos nus, homens e mulheres, todos juntos. Minha avó estava lá uma vez com as mulheres russas e com minha mãe, ainda menininha.
De repente, começaram a chegar os homens da casa, que foram despindo-se na maior naturalidade na frente das visitas, estas recatadamente de toalhas. Mas minha avó tinha muita presença de espírito e, como boa filha de italianos que era, disse apenas "Ma que calor aqui, eh?" E saiu de fininho.
Teve também a história dos presentes do velho Nononon. Assim minha mãe chamava o dedushka da família. O nome do velho avô da família russa perdeu-se melancolicamente nas brumas da história da imigração de São Paulo. Enquanto minha avó fofocava e tricotava com as mulheres, minha mãe, com menos de cinco anos de idade, passava muitas tardes em companhia do velhinho, que, já aposentado, nas estepes russas teve por ofício a carpintaria.
Minha mãe mal falava o português. E o velho russo falava nossa língua ainda pior que ela. Para minha mãe, o nome do velhinho era Nononon, porque, segundo a menina, era tudo que o velho falava, em seu russo aportuguesado. Mas entendiam-se perfeitamente. A menina saía do lar russo sempre com algum presentinho. Uma vez o velhinho regalou-lhe uma carroça puxada por um cavalinho de madeira.
Na carroça ia um cocheiro com um chicote na mão. Por meio de uma engenhosa biela no eixo da carroça, quando minha mãe puxava o cavalinho, várias coisas aconteciam ao mesmo tempo: enquanto as rodas da carroça giravam, o cocheiro chicoteava e o cavalo mexia as pernas. E tudo isso usando apenas madeira, arame, barbante e uma tampinha de garrafa. Eu cheguei a conhecer este brinquedo, ainda inteiro e bem guardado lá em casa, uma verdadeira relíquia dos tempos em que São Paulo era uma cidade inocente.
Talvez por isso eu não goste dessas feirinhas de artesanato, nunca encontrei nada comparável à simplicidade genial da carrocinha russa do velho carpinteiro Nononon. A cadeirinha de madeira é outro dos presentes do velho russo à minha mãe. A cadeira ainda permanece viva lá em casa, em sua terceira geração. Depois de servir às estripulias da minha mãe, passou pelas mãos dos seus filhos, meus dois irmãos e eu.
Agora, ainda atura corajosamente as investidas do meu sobrinho Enzo, que arrasta a cadeirinha para todos os cantos, sem piedade. Bravo, cadeirinha, que ainda resiste depois de cinqüenta anos ao verdadeiro ataque soviético de três gerações da família. Na zdorovje, Seu Nononon!
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