"Rua 27, sem número". Era assim que eu respondia quando perguntavam pelo meu endereço. Acrescentava que ficava quase na esquina com a Rua 38 e isso era mais que suficiente, já que não havia água encanada nem energia elétrica e, portanto, não havia contas a ser entregue em casa.
Cartas de parentes deviam ser retiradas na agência dos correios, situada na Vila Esperança, próximo à estação de Vila Matilde e da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil.
Eis, porém, que um belo dia, a Prefeitura determinou que todas as casas deveriam ter um número. Eu soube disso porque vi meu pai e meu tio conversando sobre esse assunto e, ao mesmo tempo, tentavam decidir que número registrar para a casa. Tinha-se plena liberdade para escolher o número que lhe desse na telha.
Deve ser por isso que ainda hoje há ruas em São Paulo com numeração irregular. Aliás, creio que é a maioria!
Voltando ao número escolhido para a casa, cogitou-se dar-lhe o nº. 100.
– "É muito", disse um deles.
– "Cinqüenta".
– "Ainda é muito".
Para não alongar desnecessariamente a história, foi escolhido o nº. 29. Nem sei como me lembro disso, tão criança eu era!
Só sei que, depois disso, ficou melhor para dar meu endereço: Rua 27, nº 29. Tinha mais ritmo, uma métrica própria.
Só o que parecia estranho é como que as casas vizinhas eram numeradas: 110, 112, 114, 116 e… 29.
Anos depois, a Prefeitura pôs nomes nas ruas e a minha rua recebeu o nome Peirópolis (nome de um distrito de Uberaba – MG, onde foram encontrados fósseis de um dinossauro datados de uns 100 milhões anos, a quem foi dado o nome de Peirossauro).
A numeração hoje é regular, as ruas são asfaltadas. Só não temos ainda gás encanado.
A vida "melhorou", mas, ainda sinto saudades do tempo em que meu endereço era Rua 27, S/N°, Vila Guilhermina; São Paulo, Capital.
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