Uma característica marcante das maiores cidade do mundo e de localizarem margeando importantes rios. São Paulo não poderia ser diversa e os campos de Piratininga são privilegiados com significativa malha hídrica onde se destaca o rio Tietê, cujo nome em tupi, com muita propriedade significa o “verdadeiro rio”; que por sua vez é flanqueado por outros rios como o Pinheiros, o Tamanduateí, além de centenas de riachos e arroios já esquecidos sem nome. E que receberam como sina a pena capital pelo crime de ousarem afrontar a gula da cupidez de um tal de progresso que simplesmente os ignorou na ânsia de prover novas áreas para serem ocupadas pelo homem.
O Tietê brotado, lá por Salesópolis, já mapeado no século XVIII, humilde como soem ser o arroios, crescendo lentamente em direção a Mogi das Cruzes, ocupando um vale que lhe pertence tendo a esquerda, os costados da Serra do Mar e a sua direita os contrafortes da Mantiqueira, se espraiando em suaves meandros, lagarteando sem pressa, ciente de sua orgulhosa missão, de flanquear São Paulo de Piratininga.
Atingindo a cidade pelas bandas de Cangaíba e Penha de França e após cruzarem uma boa dezena de bairros deixando sorrateira a cidade, pelos lados da Lapa, em direção ao sertão paulista. É o Tietê conhecia sua tarefa. No inverno hibernando e se recolhendo ao leito, lento, corcoveando patrulhando, deixando claro, porém, quais os seus limites, salpicando todo o seu vale com milhares de pequenas lagoas como guardiões.
Mesmo na estiagem seu espaço era inegociável. Na chegada das chuvas da primavera, voltava a se encorpar, apressava o passo, procurava atalhos, sua ânsia de mostrar seu coração forte era tal que explodia no verão tornando o imenso vale em uma continuada vastidão inundada. Criadouro de aves, peixes e animais, abundavam na exuberante natureza.
Mas a cidade crescia. O bairro de Vila Maria no verão era tomado por semanas pela água. Nas brumas de minha memória infantil, fins da década de 40, ainda me recordo de andar de barco pelas ruas Andaraí, e Armando Rodrigues, navegando ao ritmo modorrento de um barqueiro português que gentilmente conduzia as pessoas para suas casas, em troca de uns tostões, utilizando como atalho um terreno ocupado pelas traves de um campo de futebol.
Fez-se o progredimento, não poderia se tolerar mais tão vastas áreas de banhado, desde São Miguel Paulista até Osasco. Havia muitas terras a ser ocupadas, desbravadas, tapar as lagoas, retificar o rio, construir, nos primórdios da década de 50, São Paulo não podia parar, e eis que isto foi feito. Tudo perfeito na técnica e engenho, só que foi esquecido o principal. A revelia, sem perguntar se o rio Tietê, abria mão do seu vale, de seus banhados, de seus peixes e animais de suas aves de arribação de sua flora e fauna aquática.
Hoje vemos que faltou a benção da mãe natureza, e ela anualmente nos rememora sua zanga com as traquinagens do rio Tietê, ocupando com águas o vale que continua seu.
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