O sinal sonoro anunciava a chegada do trem suburbano da extinta EFSJ, com as suas composições prateadas ao anexo da estação Roosevelt. As grandes porteiras da Rangel Pestana fechavam-se automaticamente como num passe de mágica e o característico som do impacto era como música para meus ouvidos de menino.
Carros e ônibus aguardavam, juntamente com os pedestres, a passagem incólume do comboio. Ora vindo das estações do leste, ora indo para o oeste.
Detenho-me em frente ao meu teclado para relembrar a geografia do lugar, as cercanias deste 'epicentro' lugar, com a velha e majestosa estação do Norte, ou Roosevelt, ou mesmo do Bráz, como muitos ainda a conhecem.
O frenesi de pessoas chegando ou partindo para os mais variados destinos e o comércio local, oásis das coisas nordestinas como a boa farinha de mandioca 'copioba' ou de 'guerra', carne seca, alcunhada por 'jabá', além das miudezas e outras 'grandezas' tão comuns na vida de todo nordestino. Ainda perdura por ali o 'sindicato da Bahia', que agrega todos os interesses dos 'baianos' oriundos de todos os estados do norte e do nordeste do nosso país.
Vem-me agora a lembrança do Largo da Concórdia e o seu imponente e, hoje extinto, monumento maior, que foi o teatro Colombo. Palco das muitas apresentações culturais há muitas décadas passadas, foi palanque de cantores e atores que hoje ocupam a mídia televisiva e cinematográfica nacional. Outros já não mais estão em nosso meio.
A decadência do velho largo deu-se com a inatividade do igualmente velho teatro e o lugar passou a ser ponto de prostituição e de desocupados e tungadores, batedores de carteiras e outros ladrões 'pés de chinelo', até o momento da revitalização do lugar com as barracas de camelôs e outros comércios informais.
Já não mais existem as porteiras e os trens prateados já não circulam por aquela via. Agora são outras as composições, mais modernas e mais coloridas.
Os antigos ônibus 'coach' da também extinta CMTC, traziam em sua bandeira a informação '5 – Estações' e fazia o seu itinerário abrangendo todas as estações de transbordo da capital, desde a do Bráz, passando pela Luz, Julio Prestes e Rodoviária, na Avenida Duque de Caxias.
Outro ícone, também extinto, eram os bondes que avançavam em leito exclusivo até o Bráz, para depois seguirem para os bairros do Belenzinho, Tatuapé e, mais longe, o bairro da Penha de França.
A usina do Gazômetro emanava o seu cheiro característico de gás, que emanava toda a atmosfera da região.
A arte nas vitrines das lojas comerciais da época, como as Casas Pirani, Móveis Teperman, Lojas R. Monteiro e tantas outras, dividiam os espaços e a concorrência com outras pequenas lojas de tecidos e confecções. Bares, restaurantes e pastelarias, estas últimas comandadas por chineses, ofereciam os tradicionais pasteis de carne, queijo, palmito e de camarão, além das saborosas pizzas brotinhos, e quibe em forma de charuto, que podiam ser acompanhados por refrigerantes ou caldo de cana moído na hora.
Nas ruas transversais da Rangel Pestana, além das residências familiares, alguns cortiços e malocas, habitações coletivas dos muitos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, além das outras nacionalidades, estavam também as muitas fábricas e moinhos que, a todo vapor, contribuíam à economia paulistana.
Ruas como a Assunção, Monsenhor Andrade, Carneiro Leão, Caetano Pinto, Baptista de Andrade dentre muitas e, destas, a minha preferida foi a Rua Piratininga, meca das peças de carros antigos onde podíamos adquirir motores, chassis, eixos e suspensões dos mais variados modelos de carros antigos, além de parte de suas latarias e vidros.
A escola do Senai, prof. Roberto Simonsen, com o seu imponente edifício mesclando sala de aulas e oficinas, contribuiu para a formação dos muitos profissionais para a indústria paulistana e fora dela. O Romão Puiggari, colégio fundamental de muitos brazeiros ou não, muitos deles já formados e abancados em suas profissões universitárias.
As porteiras do Bráz jazem nas nossas lembranças e saudades e não mais ouvimos os seus estalos quando se fechavam. Em seu lugar, um moderno viaduto, passadiço mais ágil para fluir um tráfego mais intenso e volumoso, diferente daqueles mais lentos de décadas passadas.
A fé e a religiosidade também estão presentes no Bráz com a igreja de São Vito e sua festa anual que leva a sua comunidade a enaltecer e agradecer as conquistas e as realizações alcançadas.
Contudo, ficam as felizes memórias de um bairro de grandes sortilégios e cultural. Ficam a saudades dos tempos de outrora, das chuvas e das grandes enchentes do Tamanduateí, das estivas e até do velho trenzinho da Cantareira, Mercado Municipal e o Palácio das Indústrias. Mas estes fazem parte de uma outra história.
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