As minhas muitas vidas e minhas muitas mortes em São Paulo

Antes de mais nada, um aviso, ou recomendação seria melhor? Ninguém precisa acreditar nas coisas que eu vou passar a narrar a partir de agora, quero falar sobre algumas das minhas vidas e algumas das minhas mortes nesta cidade de São Paulo, cidade que me espanta, me assusta, me alegra pelo simples fato de continuar preso a ela a cada renascimento meu. <br><br>Mas, em primeiro lugar, deixem que eu me apresente. Meu nome? Meu nome era, de início, "Não sei", nome que o Mestre de Porão da embarcação que nos trouxe para o Brasil me deu porque era a única frase que eu sabia falar na língua estranha daqueles homens pálidos, barbudos, sujos, mal cheirosos.<br><br>Nunca soube meu nome de nação na África. Vim muito pequeno – acho que com 6 ou 7 anos do tempo cristão. Vim em um tumbeiro inglês ou das Terras Baixas, com meu pai e minha mãe. Eles não tiveram tempo de ter outros filhos. <br><br>O “muezin” da mesquita, além de chamar para as orações do Corão, também era mercador de escravos e fomos trocados por 3 rolos de tabaco e 2 facões e levados para um porto onde fomos vendidos a preço vil para escravocratas portugueses. Fomos acorrentados uns aos outros e embarcados em uma grande nau de 3 mastros. Foram 43 sóis e 43 luas, os dias e noites que duraram a travessia da calunga salgada. <br><br>Passamos fome e passamos sedes terríveis, fomos humilhados, chicoteados, amarrados, acorrentados. Uma vez por dia, saíamos para o convés, com chuva ou sol e, acorrentados, andávamos em torno do cordame, dos mastros, do velame recolhido. Como exercício, faziam-nos dançar ridiculamente para fortalecer a musculatura que ia se esvaindo; aqueles que, naturalmente, não conseguiriam pisar em chão, eram atirados ainda viventes ao mar. Então, menos negros, mais água para beber, mais pães de marujo para comer. Baldes de água salgada eram jogados em nossos corpos em dias de calor…<br><br>Meus pais morreram ambos no mesmo dia, jogados no Oceano, ainda respirando e com seus corações pulsando. Nem mesmo seus corpos foram respeitados, sem nenhum ritual que os abençoasse e os levasse às terras benditas de Olorum. Conseguiriam dar às praias do Brasil, muito longe estávamos de qualquer “nesga” de terra firme.<br><br>Apenas eu e mais uns poucos chegamos, aportados num lugar chamado Salvador da Bahia; demais foram as mortes durante a navegação, éramos mais de 500 pessoas quando deixamos nossa Mãe África, pouco mais de 100 chegaram vivos e mais alguns morreram em terra. <br><br>Com outros homens, mulheres, crianças, fomos quarentenados, engordados como cavalos ou camelos, nossos dentes foram contados e avaliados… Nossa fome e nossa sede foram aplacadas. Provamos do inferno e, em seguida, vislumbramos uma fração do paraíso. <br><br>Não sabíamos de nada, à noite víamos as estrelas no céu e parecia que aquele céu não era o céu da África… Não, não há engano! Hoje, eu tenho conhecimento que tenho andado por Pindorama por quase 400 anos ou mais. Muitas vidas vividas. Meus olhos viram tudo, meus ouvidos ouviram tudo. Ri e sorri milhões de vezes e também sofri e chorei outros milhões. <br><br>Parece que Obaluayê, de cuja família descendo, “conluiou-se” com o Jeovah/Adonai/Eloim judeu, Allah islamita, o Deus cristão e deliberaram que eu deveria passar séculos na cidade de São Paulo, morrendo e renascendo, morrendo e renascendo, quase infinitamente. <br><br>Conheci Frei Galvão e trabalhei como seu escravo, eu e muitos outros, na construção do Mosteiro da Luz (interessante que ficou como fato histórico que toda aquela construção grandiosa foi feita por apenas “hum” homem e mais meia dúzia de frades. <br><br>São Paulo, naqueles tempos, era um "Ó", um povoadinho, não tinha um exército de frades pedreiros! Venho caminhando para frente e para trás no tempo, fui voluntário da Pátria, à força, cedido por meu “sinhô”, que ele não iria mandar gente da família ou fardar, armar e municiar gente branca para lutar contra Solano Lopes… Estive em diversos campos de batalha, voltei para o Brasil sem ferimentos ou doenças, mas a promessa de alforria para os cativos que se “voluntariavam” para lutar pela Tríplice Aliança não foi cumprida. <br><br>Os argentinos, pelo menos, foram mais práticos no que diz respeito à abolição do cativeiro em suas “plagas”: mandaram seus negros para a guerra, sem nenhum preparo, sem armas, sem fardamento, sem médicos. A maioria deles morreu e os que conseguiram sobreviver à malária, a cólera, às balas, desertaram e fugiram para o Uruguai ou entraram no Brasil por Mato Grosso ou Iguaçu. <br><br>Promessa não cumprida, permaneci cativo, mas, agora como “nego de ganho”, cuidando de cavalos e trabalhando como cocheiro para famílias ricas. Os vinténs que recebia como paga de meu trabalho e mais o que a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos colocou em minhas mãos, permitiram que eu pudesse comprar minha liberdade. <br><br>Em muitas vidas, corri do sertão para a Vila de São Paulo, de São Paulo para o litoral, onde trabalhei na pedreira que forneceu material para a construção do cais e armazéns do porto de Santos. Hoje, quando vou para minha casa no litoral e vejo aquela montanha de granito rasgada ao meio na entrada da cidade, sinto alguma coisa, ou voz ou sensação, sei lá!, Algo que me afirma: – "Você já esteve aqui, não agora, bem antes, quando você era outro você"… Como já disse, ninguém precisa acreditar em nada do que está escrito, vejam tudo como coisas da imaginação, da cabeça já um tanto confusa deste “nego véio”… <br><br>Na Bahia, com meus 20 anos, consegui fugir do cativeiro. Aproveitei o canhoneio dos holandeses e dos fortes da baía de Todos os Santos e me embrenhei no canavial. Infelizmente, com gargalheira no pescoço, fiquei preso na mata fechada ao sair do canavial. Matilhas de cães em meu encalço, gritos dos meus perseguidores… Fui recapturado e vendido novamente: "Negro boçal” (boçal: que não fala português ou fala mal a língua e safado, que fugiu ou que foge e que se safa). Eram os problemas a mim atribuídos no edital que relacionava os negros postos à venda, o que barateou meu preço. <br><br>Fui vendido a um português que vinha para São Vicente e, depois São Paulo de Piratininga, ou seja, o português caiu no conto do vigário para usar uma gíria do século XX. O barato sai caro. O bigodudo comprou uma praga porque eu continuei fugindo. Em minha última fuga, levei sua mulher comigo. Tivemos filhos e filhas que eu não vi crescer.<br><br>Fui abatido à tiros tentando correr de um “gendarme”. Eu fora denunciado como negro safado pelo português bigodudo que acabou por me achar morando em uma roça que ficava no local chamado Saracura, no sopé do morro do Caaguaçu.<br><br>Foi assim que me prendi ao chão paulistano e foi a partir dessa morte que me vi preso à cidade fazendo parte da alma de São Paulo. Sim… Porque as cidades têm alma e a alma dessa nossa cidade é grande, enorme… <br><br>São Paulo, no ano 1600, não era nada em comparação ao Rio de Janeiro ou a São Salvador da Bahia, não poderíamos chamar de ruas as picadas que iam de igreja a igreja com algumas casas de taipa nos caminhos a serem percorridos: da igreja de Santo Antônio à Igreja da Sé, da Igreja de São Bento à Igreja de São Francisco, formando uma cruz que abrangia o território total da cidade. <br><br>São Paulo era um lugar para onde se vinha das fazendas e sítios e onde se falava o “nheengatu”, língua da “bugrada” e que aprendi por necessidade, que poucos falavam o português estropiado que eu falava na Bahia.<br><br>Em uma de minhas últimas vidas, “sentei praça” na Força Pública, dos poucos trabalhos que aceitavam ex-cativos alfabetizados, condição “sine qua non” para admissão. Vida difícil para um negro, resquícios ainda dos tempos do cativeiro. A abolição fora decretada um ano antes e ficamos por nossa conta, à Deus dará, dependentes de favores, de trabalhos mal pagos, livres mas… , ou mal pagos, mas livres… 1897. <br><br>Por 3 meses estive em Canudos. Participei de algumas escaramuças, ferimento de raspão na orelha esquerda, um tiro de um fuzil Comblain a curta distância, nada muito sério. Um companheiro fez o curativo com bosta seca de cavalo, picumã de borralho e mijo de cadela no cio, tudo misturado em uma pasta que foi aplicada na ferida. E foi assim que morri de tétano! Foi minha antepenúltima morte, a mais idiota de minhas mortes, uma morte desenxabida, sem graça. <br><br>Voltei no tempo e renasci no Rio de Janeiro em data incerta entre 1840 e 1850, ainda como cativo, mas não durei muito, fui levado pela febre amarela e pela cólera. Nos interregnos de minhas deslocações no tempo e no espaço fico me perguntando como é possível uma situação tão estranha: do presente, numa atualidade, uma vida e morte no futuro e renascer novamente no passado, que se torna presente! Deixa,… Não pensar…<br><br>Eis-me de volta a São Paulo, demorei um pouco mais desta vez, tempo suficiente para lembrar as minhas vidas e mortes. Palimpsesto. Lembro-me de minhas vidas de 200 anos atrás. Não consigo lembrar de minha última vivência! Voltei malandro, batuqueiro do Cordão Vai-Vai, do Bexiga. Estou de novo no Saracura, anos 1900 (ou 1920). Sou convocado para a Força Expedicionária Brasileira, viajo em um navio americano para a Itália. O frio, o frio! A neve não é tão bonita e gostosa como aparece nas fotografias e filmes… <br>O tedesco me localizou, estou em sua mira, o cano do fuzil, um rosto negro na neve branca, a explosão de luz, em um ou dois segundos o espocar da cordite, um único tiro. Verde-oliva, negro, branco, vermelho-sangue, a mórbida mancha sobre o campo gelado…<br><br>Estou flutuando quase ao nível do chão. Direita. Ela ainda vai da Igreja de Santo Antônio para a Sé e a São Bento continua ligando a de São Francisco ao mosteiro de São Bento. Frei Galvão, senhor de escravos, se tornou santo católico. O mosteiro da Luz continua onde eu e outros cativos o deixamos séculos passados. Nada mudou e mudou tudo…<br><br>Eu sei que o “eu futuro” vai chegar para o café no Bar Bosa aqui na Rua Direita. Materializo-me, será? Tenho permissão Dele? Ele, o Eu, marcou comigo para ouvir histórias, ele gosta de saber sobre São Paulo. Sento-me no fundo do frege-moscas, bebo um café no pires fazendo biquinho e soprando, o café está muito quente! Ói ele lá, “tá chegando”! Acena para mim. Senta-se de frente para mim e de costas para a fria e movimentada Rua Direita. Assumo-me como Galo Cego, um Nego Véio…<br>“- Diga aí, Galo Cego, como estão as coisas?<br>- Ansim, ansim… Fazia tempo que eu não vinha prêsses lado, munto tempo, cê nem magina…”<br><br>Conversei comigo durante uma meia hora, eu falei do tempo, ele, o outro Eu, falou da carestia, do racionamento de água e de eletricidade, do futebol, até as minhas lembranças começarem a voltar. Então comecei:<br>“- Eu si alembro do tempo que aqui, na Praça da Sé parava as carruage dos bacana, isso faz munto, munto tempo…”<br>****************<br><br>Está bem, eu posso estar sonhando e daqui a umas horas acordo. Tudo o que eu falei pode ter acontecido e estar acontecendo em diversos planos temporais, posso, simplesmente, estar louco, delirante, babando na gravata, ou então, esse tipo de realidade é possível! Eu tenho minha opinião, mas é minha opinião, não vale a pena me estender no assunto. Muito complexo, muito complicado. <br><br>São Paulo é uma cidade que prende as pessoas em seu chão e mexe com seus sentidos. Só não sei quanto tempo vou estar por aqui, neste universo, porque os universos são “mils”, paralelos, uma São Paulo em cada um deles com “Eus” e “Vocês”. Mas não precisam opinar e muito menos acreditar. Posso estar mentindo… E tudo recomeça e reacaba…<br><br><br>E-mail: [email protected]