As meias do Paul

Paul McCartney só usa meias pretas, é o que dizia a reportagem da revista que eu, pacientemente, folheava esperando na fila do cinema. Finalmente era chegado o dia do lançamento do filme "Help". O ano, 1965.

Não me lembro das manias citadas sobre os outros três Beatles. Já acomodado nas poltronas meio à centena de fãs, aplaudi e me emocionei quando eles começaram a cantar a música que deu título ao filme. John no lead vocal confessava: Help, I need somebody! Confesso que preferia sua irreverência bolchevique chegando na primeira turnê americana com um boné ao estilo Lenin (reparem nos filmes da época). Paul era de uma delicada beleza, adorado pelas meninas com "Yesterday" e invejado por nós. Mergulhados naquela mania, meu amigo Mario e eu decidimos fazer as traduções das letras para fins lucrativos, mas essa foi uma idéia que não deu muito certo.

Depois de anos "Rubber Soul" estava nas lojas e foi novamente John que deu voz à dor de cotovelo com "Girl", "Norwegian Wood". Com "Revolver", revelo que não entendi bem o caminho. Paul cantava a triste viagem de Eleanor Rigby que "vivia um sonho enquanto apanhava o arroz que restava no chão da igreja". Busquei no Centro Velho de São Paulo o Sergeant Pepper, que foi ouvido compulsivamente. Eu diria que até mesmo à exaustão. Nesse LP não havia grandes preferências porque a dupla brilhou com igual intensidade.

No "Álbum Branco", além de "Dear Prudence" de John, Paul aparecia com "Blackbird" onde nos dizia que, apesar das asas quebradas, devíamos aprender a voar. Amadureci ouvindo as quatro músicas em sequência de "Abbey Road" e Paul já não era mais um rostinho bonito. Na Faculdade, meu materialismo histórico racional negou a dissolução dos Beatles três vezes. Na primeira, ouvindo Hendrix e sua guitarra rasgando o Hino Nacional Americano em Woodstock; na segunda, mergulhado nos delírios etílicos ouvindo Emerson, Lake & Palmer e na terceira, obviamente, discutindo a influência da música moderna brasileira sobre Pat Matheny. Era nosso triunfo sobre a ascendência estrangeira na nossa música, afinal Ivan Lins já tinha gravado com Quincy Jones. O sonho tinha acabado e minha tristeza era presente com a morte do John.

O tempo foi lentamente cobrando sua passagem e me vi cantando "Hey Jude" para minha filha adormecer. Delicadamente mas de maneira sedutora, fui doutrinando sobre quem eram os Fab Four de Liverpool, comprando tudo o que aparecia no mercado. Expliquei a ela o significado de cada música e até fiz uma tradução livre de "Hey Jude", onde "Dona Judite tinha quase morrido de bronquite, ora Dona Judite". Aos conco anos, ela gargalhava com essas palhaçadas.

Domingo, dia 21 de novembro de 2010: lá estava eu, pacientemente esperando na fila do Estádio do Morumbi, com a mesma ansiedade dos meus 14 anos à espera de "Help". Começa o show e todos desfilaram na minha mente: meus amigos, minhas amigas, meus sonhos e minha realidade. Aquela saudosa adolescência saiu da neblina, e senti que todos que fizeram parte dos meus golden years estavam comigo. Fechei os olhos e abracei-os na minha memória. Senti as lágrimas rolarem ao ouvir "Hey Jude".

Aos meus sobrinhos e futuros netos, um pedido: por favor, neste Natal não me dêem meias marrons, só uso pretas.

Uma nota final, colaborou neste texto Maria Helena Santini, a quem agradeço.

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