E quando a Primavera finalmente chegou… Não podia ter nos encontrado em lugar mais feliz: às margens plácidas do Ipiranga. Não na colina onde, dizem, D. Pedro deu o famoso grito, retratado de forma barroca e heróica no quadro de Pedro Américo, este sim no alto do Ipiranga.
Estávamos justamente onde nasce o rio, brota modesto no meio da mata atlântica, nos confins do Jardim Botânico. Um filete de água, que desce suavemente, mas que vai ganhando força à medida que retornávamos pela passarela de madeira que o acompanha até uma lagoa no Botânico, coberta de ninféias amarelas.
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, brilhava nos céus da Pátria nesse justo instante, após um sombrio início de Primavera, tão frio e chuvoso que parecia uma nova estação, de um futuro ainda mais sombrio por vir, como num trecho em “O Exterminador do Futuro”.
Mas é domingo e finalmente sol e calor. Foi uma boa idéia retornar ao Botânico, a que não vínhamos há tantos anos. O parque está muito melhor e mais bonito, as plantas em verde impecável. Helicônias, ninféias e manacás todas em suas melhores cores.
Lembrei-me de certa vez que Morphos brancas, grandes borboletas, voavam por ali às margens do bosque. Entramos no museu, simples mas pitoresco, seu belo teto em vitral colorido, as plantas e sementes bem preservadas nos mostruários centenários.
Seguimos em direção do Lago de Lineu, ladeado de dois imensos portais neoclássicos, dos quais sobem escadarias de pedra que nos leva até a mata. Na frente à pequena estufa do orquidário.
Entramos pelo túnel de bambus, e logo em frente uma das duas enormes moringas de cerâmica, nas quais se pode ainda beber água fresca e pura como nas antigas bicas da São Paulo Colonial, hoje todas desaparecidas.
Caminhando contra a corrente, pelo longo pontilhão de madeira chegamos afinal à famosa nascente do começo de nossa história, o rio que foi imortalizado em verso e música, tão humilde em seu início e tão grandiloqüente em nosso hino.
São Paulo tem vários parques interessantes, cada qual com suas virtudes e defeitos, lotados nos fins de semana. E tome bicicletas, cães, atletas ofegantes em seus mundos particulares, ligados aos fones de ouvido. Pois o Botânico combina várias virtudes dos outros, sem seus defeitos.
Está mais para o Botânico do Rio, e como ele um oásis, sereno e imenso, no qual a cidade circundante nem parece existir, seu barulho e poluição totalmente abafados pela natureza.
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