As imprevisões dos descampados

No início dos anos 1950 a zona sul era um descampado só. Principalmente a partir do final do bairro do Itaim. A Vila Olímpia estava sendo formado, o Brooklin idem. Então era terreno baldio para todo canto. Quem gostava muito disso éramos nós, os moleques. Podíamos jogar bola onde quiséssemos. Correr por todos aqueles imensos campos brincando de mocinho, pique, queimada, jogar taco e todas as modalidades de brincadeiras que necessitasse de bastante espaço. Mas tinha uma coisa que nos importunava. As tempestades. Uma visão assustadora era ver o córrego da traição cheio até a boca. Quando a ponte que ligava a Rua Arandú a rua Ponta Delgada – era formada por dois tubos de concreto de um metro meio de diâmetro – não resistiu à força das águas indo parar quase no rio Pinheiros, levados pela correnteza que, com muitos galhos e trocos de árvores que a enxurrada trazia, bloqueou a entrada da água levando a ponte embora. A enxurrada trazia de tudo. Fogão. Sofá, armário, tudo que era jogado no córrego era carregado pela forte correnteza. De vez em quando vinha também um corpo de pessoa desavisada que queria salvar algo e acabava caindo no córrego. O corpo só era encontrado no dia seguinte no Rio Pinheiros. Foi o que aconteceu com alemão em 1951, quando quis desobstruir a boca da canalização do córrego do Anhangabaú, onde fica hoje a avenida nove de Julho justamente na eclusa da Rua da Mata (nome que permanece até hoje). Mas não era somente esse o perigo, os raios também eram perigos constantes. Quando vinha a chuva, a gente só parava de jogar quando ela estava muito forte. Homem que é homem não foge de uma luta por qualquer coisinha, era a lei da rua. Quem saia do jogo logo que a chuva começava ou, era mulherzinha, ou então a mulher do padre. (rsss) Isso no jargão da molecada. Quando a chuva estava forte a gente ia se esconder debaixo das árvores, o que tinha de monte por perto. Ali residia o perigo. Os raios têm preferência em cair por cima delas. Principalmente ciprestes. Por isso era comum morrer sempre pessoas eletrocutadas por raios nos dias de finados. Nos cemitérios é onde se concentra o maior número de ciprestes plantados. Nos anos 1950 morreu um garoto eletrocutado na Rua Afonso Brás (Vila Nova Conceição). Era um jogo de futebol com a molecada jogando descalça. Foi justamente o menino que não estava jogando que morreu. Ele estava atrás do gol feito de tijolos, quando a descarga elétrica o abateu. O goleiro que estava próximo sofreu queimaduras e sobreviveu.
Quando da construção da Avenida dos Bandeirantes um trabalhador que empurrava o carrinho de ferro também foi alvo da faísca elétrica vinda do céu. Morreu trabalhando. Outro perigo bem grande que corríamos era quando íamos nadar no Rio Pinga. Córrego de águas limpas que corriam por onde hoje é a Avenida Luiz Carlos Berrini. Na altura da Rua Kansas tinha uma ponte de ferro com 50 centímetros de largura. Quando estava ameaçando a chuva ainda ficava muito moleque saltando dela. Uma faísca mesmo que não viesse na ponte corria–se perigo. Pois tinha árvores próximas. Houve quem não morreu, mas o susto foi tão grande que nem queria ouvir falar em chuva. Era um teimoso que só entrava em casa quando a chuva era de granizo. Mas a notícia que mais nos chocou foi a morte do Bigode. Velho amigo de grandes jornadas esportivas pelo Flamengo da Vila Olímpia. Ele era carroceiro, tinha um préstimo muito grande pelo seu cavalo. Cuidava tão bem dele como dos seus filhos. No início dos anos 1960, estava ele em cima de sua carroça dando rédeas ao seu amigão. A chuva estava pintando. O céu estava negro. Faíscas vinham de todo o lado e uma delas bateu na ferradura do seu cavalo, o atingindo também. Ali perto da Rua Raja Gabaglia, ficou estirado praticamente todo queimado, Bigode e seu funcionário de puxar a carroça. O cavalo.