Vou escrever um pouco a respeito dos meus tempos de estudante, sempre tendo como pano de fundo a grandiosa cidade de São Paulo, que sempre acolheu a todos que aqui vêm. Quando aqui cheguei, vinda de Vera Cruz, SP, divisei um novo porvir, um horizonte maior e oportunidades mil. Em 1942, cursei a 4ª série primária numa escola sensacional, o Grupo Escolar Roca Dordal. Era a primeira vez que travava conhecimento com meninos e meninas de São Paulo. O referido Grupo Escolar ficava na Rua Marajó, no Brás. Eu, que morava na Rua Brigadeiro Machado, ia caminhando até a escola, apreciando tudo e todos que andavam pelas ruas. Eu me encantava com os bondes, uns poucos carros e com minhas colegas de escola. Minha professora era uma devota da profissão que abraçou. Aprendemos muitas coisas com ela e nos sentíamos amigas dessa pessoa tão querida. Seu nome era Judith Miranda. Minhas homenagens à ela, onde quer que ela esteja!
Nos formamos no final de 1942 com uma bela festa, onde, sem modéstia, brilhei, por ter tirado boas notas. Enfim, muito orgulhosa, recebi o galardão das mãos do Sr. Walter Rebello, Diretor da instituição.
Em seguida, fui aprender corte e costura com uma professora chamada Marisa, na Rua Gomes Cardim. Essa escola formava profissionais e era fiscalizada pela escola da Rua Monsenhor Andrade, onde eram levadas as costuras das alunas para serem avaliadas. Ainda possuo, e guardo com grande carinho, esse diploma. Não virei estilista, mas até que desenhava modelos bem elegantes!
Depois de três anos de aprendizagem e de costurar roupas para mina mãe, irmãs e irmãos, achei que deveria entrar para a Escola de Comércio Santa Marta. Nossos professores eram ótimos e fiquei sabida em muitas disciplinas, tais como matemática, correspondência especializada para comércio, transformar moedas estrangeiras em moeda usada na época, que então já era Cruzeiro e não mais o famoso mil réis. A adaptação foi muito difícil. Em português também fiz alguns progressos. O professor de contabilidade era muito bonito e arrancava suspiros da ala feminina, entre as quais eu, a faceira do Brás…infelizmente sem sucesso! Que tristeza!
Imaginem que já aprendíamos taquigrafia. Uma secretária precisava deste instrumento na hora que o patrão ditava uma carta para um cliente. Terrível!
Terminado o curso, achei que já estava na hora de pôr em prática o aprendido. Minha paixão era entrar para a Escola de Comércio Álvares Penteado, mas não consegui este intento… Resolvi então entrar para a mais elitista das escolas: Escola Normal Feminina Padre Anchieta, na Rangel Pestana, rival da Escola da Praça da República, a mais moderna e digna de fama que existia. Consegui entrar para esta querida escola no ano de 1945, após o término da Segunda Guerra Mundial. Preparei-me sozinha, lendo, escrevendo, resolvendo questões de setembro até dezembro. Algumas pessoas da minha rua riam de mim por acharem que eu não lograria tal coisa, visto ser uma escola somente para ricos e muito inteligentes. Pois bem, não só consegui, como fiz o curso ginasial e pré-normal e me formei professora com boas notas.
A nossa formatura foi no Clube Homs, com o maestro Sílvio Mazuca tocando os hits do momento, nada mais, nada menos que Glen Miller, além de boleros famosos, valsas, etc. Eu me lembro com muita saudade das colegas, verdadeiras amigas da escola. Nós nos encontramos novamente para comemorar nossos 50 anos de formatura em 2002. Até hoje ainda falo com algumas delas, tão idosas ou mais moças, mas não importa a idade. O que valeu sempre foi o convívio com pessoas maravilhosas e professores com "P" maiúsculo, a quem devo os meus 30 anos de magistério, onde ajudei muitos meninos e meninas a ler, escrever e contar. Eu me orgulho de ser reconhecida pelos meus antigos alunos, que se lembram de mim. Casei-me em 1954, tive 8 lindos filhos e resolvi entrar para a Faculdade Campos Salles, na Lapa, em 1972 para estudar pedagogia.
Estudei pra valer para poder ensinar melhor. Formei-me em 1974 e devo a essa escola ter aprendido e aplicado importantes e novas técnicas de ensino. Cheguei, por concurso, a ser coordenadora pedagógica, e acredito ter ajudado muitos professores recém-formados, bem como aos veteranos, sempre em nome dos alunos, a razão maior de todo meu esforço no magistério paulista.
Agora aposentada, escrevo as minhas memórias – e continuo aprendendo na escola da vida!