As enchentes do Cambuci

Mudei-me com minha família para o Cambuci por volta de 1961, com dois anos de idade. Fomos morar num daqueles prédios do IAPI que existem até hoje, mais perto da Avenida do Estado e, por consequência, do Rio Tamanduateí.

O rio não era canalizado e muito menos havia aquela avenida horrorosa que passa por cima dele. Saímos de lá em 1967 e, nestes seis anos, pudemos conviver com uma série interminável de enchentes que tinham lá seu charme, longe das tragédias que estes casos causam em outros bairros nos dias de hoje. Talvez eu achasse bacana, porque ficava horas e horas vendo a Rua Leopoldo Miguez (será que é isso, mãe?) cheinha de água barrenta e, na minha memória, não muito suja. Tudo isso era contemplado do segundo andar, na mais absoluta segurança. Quando a noite chegava, com as luzes dos postes de iluminação, o visual adquiria uma riqueza especial, que aquele garoto apreciava pendurado na janela sem tela (pois é, vai pensar nisso hoje!).

Com meu crescimento, passei a exigir da Dona Lourdes que me deixasse descer à noite para brincar com os meninos mais velhos na enchente. Lógico que não mergulhando na água suja, mas principalmente jogando pedras e correndo e brincando com uma cachorra do prédio, que parecia se deleitar com alguma coisa no barranco gramado que, neste momento, fazia a função de encosta do "rio".

Não sei com que idade, mas, num passe de mágica, me transporto para algum tempo em que minha mãe já me deixava descer e, finalmente, descobrir com o que a Laika (esse era o nome da cadela, famosa no prédio) brincava: ratos, muitos ratos que, com a água invadindo seus buracos, saíam para a superfície para a alegria da Laika e da molecada!

Não sei que fim levou a Laika, vira-lata da melhor espécie. Também não sei se meu pai sofria para chegar em casa. Só sei que estas enchentes eram uma diversão para a garotada! Parece que as obras de canalização deram certo e os moradores da região não passam mais apuros desta natureza.

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