As águas

O Nelson de Assis lembra o parque Siqueira Campos, na Avenida Paulista, em frente ao MASP. E a "floresta impenetrável”. Pois bem, quem conseguisse varar as veredas da selva, chegaria facilmente à Alameda Itu e daria de frente com os portões do Colégio Dante Alighieri. Ali se reunia uma turma de notáveis arruaceiros.

Década de cinquenta, primeiros anos. E exatamente no centro da floresta havia um chafariz, uma espécie de lago, com dois palmos de profundidade e certa área delimitada por pedras rústicas cimentadas entre si. Eis outra "fontana". O professor Rigoleto Mattei tentava ministrar aulas de desenho, de pintura, enfim, pensava em despertar nossa atenção para as artes plásticas. Certamente não merecíamos tão dedicado professor. Escondíamos nossos corpos por entre a densa vegetação e aguardávamos a passagem do mestre, findas as aulas. Assim que ele entrava no parque, demandando a Avenida Paulista, ouvia-se um pavoroso grito: "- Rigoleto!", seguido de outro, fruto de muitas vozes em uníssono: "Pum!", e novamente a primeira voz: "Matei!!!". Pois bem, aqui a memória entra em pane. Acho que o carro pertencia ao professor Mattei, mas não tenho certeza. Certamente pertencia a um dos professores do Dante. Era um Renault "rabo-quente", minúsculo carrinho com motor traseiro, novo em folha. Descobrimos que dez ou doze dos meninos mais graúdos conseguiam levantar o automóvel. Dali a transportá-lo para a "fontana" no meio da mata foi um segundo. Ficou artisticamente colocado no meio do laguinho. Ninguém ficou para ver a surpresa que aguardava o amado mestre. Também não sei como e se o carro foi retirado. Sinto muito, não sei e ninguém contou.

Quanto aos chafarizes do túnel, na Nove de Julho, volto mais dez anos no tempo. Certa noite, inaugurada a avenida, meu pai levou-nos para um passeio. Subimos a avenida e chegamos ao túnel, temerosos, pois corria a lenda que uma buzinada enérgica provocaria vibrações e a obra desmoronaria. Fascinados, percorremos as entranhas da terra, e, no final, um grito de surpresa e de encantamento: fortes luzes iluminavam os chafarizes e das bocarras das górgonas jorrava água cristalina e abundante. Momento da mais pura estupefação e entusiasmo. Volta e meia repetíamos o passeio. Às vezes as luzes estavam apagadas e a água desligada. É isso, Nelson.

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