São Paulo e chuva. Desde que conheço esta cidade, parece ser esta uma combinação constante.
Desde sua disposição geográfica a beira de um despenhadeiro, onde embaixo é o mar, até sua configuração montanhosa, com rios,córregos e colinas, tudo remonta a um passado de águas, pingando, caindo e escorrendo, desde antigas eras.
Mas, se a chuva costuma ser abundante no volume, tem lá suas variações, no modo como cai.
Mudou bastante, desde que vim para esta cidade,em meados dos anos 50. Nesta época,
a característica do fim do ano era de chuva fina, mas constante.
Era impensável não ter, senão as incômodas galochas, hoje peças de museu, pelo menos uma capa de nylon. Hoje desaparecidas, eram peças usuais, vendidas no Mappin, na Mesbla, na Exposição…
Eu tive várias, que sempre acabava por perder, bem como os guarda-chuvas.
Uma vez comprei uma super elegante para a época. Na mesma tarde, convidei uma colega de trabalho para tomar umas e outras, ali mesmo na 7 de Abril. Saímos de lá e a capa ficou sob o balcão. Voltei imediatamente, mas já havia desaparecido.
E a chuvinha não parava. Passei o ano de 62 em Porto Alegre, com ocasionais vindas a São Paulo.
No sul, peguei frio, mas também calor, como nunca havia conhecido antes. E minha capa de nylon azul marinho era uma companheira constante. No final do ano, com o fracasso das empresas onde trabalhara, voltei a São Paulo. Nem isso foi fácil, pois o dinheiro tinha-se ido todo, e mal consegui comprar a passagem de ônibus.
Chegando, fui para o sobradinho que tinha no Planalto Paulista,com minha mãe e meu irmão.
Era noite,chovia e a casa estava deserta.Tinham ido para a festa de Natal de minha tia Zilda,onde a parentada se reunia para homenagear minha avó Sebastiana,beirando os 90 anos.
E lá fui eu.Nos dias seguintes,revendo velhos amigos e lugares nostálgicos da grande cidade,quase nunca encontrei um tempo mais sêco.A chuvinha nada respeitava, acabava entrando pela capa,ensopando a sola dos sapatos.
Talvez seja o aquecimento global, do qual nosso grande irmão do norte é um dos maiores culpados, e o Presidente Bush teima em não assinar o Tratado de Kyoto. Seja como for, as modestas chuvas de minha juventude pouco têm a ver com estes furacões, que, nesta época, enfrentamos quase todo santo dia.
Um calor infernal, o sol queimando, sem o alívio de uma brisa. E, como pano de fundo, as nuvens sinistras, sulfurosas, carregadas de correntes elétricas,prontas a despejar toda sua fúria sobre nossa cidade.
Que não está preparada para tal violência. Aliás, creio nunca ter estado, como se vê pelas marcas de sua topografia acidentada. São quase 16 horas, e a chuva ainda não veio, contra todas as expectativas.
Será que hoje, quase véspera de Natal, em homenagem a ele, seremos poupados disto?