Desabrigado: pensam as pessoas modernas que os antigos não sabiam o que diziam. Ledo engano. Assim é que ouvia com frequência de minha mãe: filho sai do sereno que a bronquite vai te atacar… E não é que atacava mesmo? Tudo para dizer que, se hoje formos tomar um ônibus no Largo 13 de Maio, à noite, ficaremos no sereno. Sinto saudades do abrigo que há anos passados existia ao lado da igreja matriz, lembram? Dali saíam os ônibus e micro-ônibus que iam para Parelheiros, Cipó, Embu-Guaçu e outros locais. Sua aparência era tão bucólica que me parecia estar vivendo em uma cidade onde jamais correriamos qualquer risco. Ao olhar aquele abrigo, tinha a certeza de que envelheceria na mais absoluta segurança. Ali, ao esperar o ônibus, as pessoas marcavam seus lugares nas filas com os pacotes de suas compras, enquanto iam tomar café ou comer um pastel. Era tão acolhedor que parecia um conselho de mãe, dizendo: filho, não tome sereno. Hoje, foi substituído pelo terminal de ônibus Santo Amaro, que embora infinitamente maior, não me leva a nenhum sonho, senão ao pesadelo e ao pavor de me ver assaltado, cuja possibilidade, naquele lugar, é real e constante.
Minha sogra não se esquece. Era nos bondes que liamos aqueles cartazes de publicidade engraçados, como por exemplo: "Veja ilustre passageiros, que belo tipo faceiro que você tem ao seu lado. Entretanto acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o Rum Creosotado" . "Quem são os amigos da Clementina? Cito, Pox e Parquetina" . Havia um outro em que aparecia um fulano com o rosto inchado e amarrado com um lenço, morrendo de dor de dente e sugeriam para tal enfermidade a "Cera do Dr. Lustoza". A Nair do Júlio tem a cabecinha ótima. Hoje, eles estão no céu reconstruindo a nossa Santo Amaro que não mais existe.
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