Anjos

Tarde fatídica, sexta-feira, 13 de janeiro de 1961.

O Gilberto me chama para ir ver as obras do alargamento do Rio Tietê. Caramba, nada mais legal do que ver aquelas dragas e todos aqueles homens trabalhando e experimentar os estilingues que o Silvano fez na Chacur. Era um calor de 30 graus.

O Gilberto, eufórico, fala que era um negócio muito legal aquele monte de terra sendo escavado. Chegamos ao final da Visconde de Taunay, ali onde hoje estão as marginais e ficamos vendo as obras! Que obras? Era um monte de lagos e buracos que não iam para lugar nenhum…

Mas o Gilberto fala:

– “Vamos lá embaixo que é muito legal!”

Fomos. Ficamos experimentando os estilingues.
Em meia hora, aparece um caminhão com carroceria de madeira e dez homens em cima gritando:

– “Olhem eles lá, saiam daí, vamos pegar vocês!”

Não deu outra. Meus heróis, de repente, viraram meus demônios! Eles chegam perto e nos atiram no rio, eu com dez anos e Gilberto com 14… Jogam a gente em buracos separados, mas no mesmo lamaçal. Quando consigo subir a ribanceira puxando pelo mato, saio da água encontrando o meu amigo parecendo uma estátua de lama dizendo:

– “Pedrinho, pensei que você tivesse morrido, o que eu ia falar para sua mãe?”

Era uma lama só, eu e ele, dos pés à cabeça, um cheiro de esgoto total. Vamos andando naquela miséria, envergonhados de tanta sujeira e encontramos uma escola pública: o Parque Infantil do Bom Retiro, sem a gente esperar, uma professora santinha pergunta:

– “O que fizeram com vocês?”

Ela nos ajuda a nos lavar em um tanque do pátio da escola e, depois, muitas e muitas noites adormeci sonhando com esse meu anjo na terra. Nunca voltei para ver meu anjo. O Gilberto, que era Gilberto Angelo Volpicelo, já se foi faz poucos anos. Foi e não contou para ninguém que estava indo. Agora é Angelo mesmo. A James Holland parece mais triste sem ele…

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