Dr. Guilherme de Almeida, o poeta

Cada vez que ele adentrava a livraria, era sempre admirado por todos os presentes. Estávamos no começo dos anos 50. Eu era apenas o entregador, mas isso não me tirava o direito de admirar aquele poeta que era um mito da literatura brasileira. O tempo foi passando e fui promovido à balconista, mesmo assim nunca tive a oportunidade de atendê-lo, pois ele era uma celebridade e, como tal, era atendido pelos gerentes, o Arnaldo ou o Salvador, e na maioria das vezes pelo Sr. Joaquim Saraiva.

Eu, entre outras coisas, também ajudava o Sr. Arnaldo, que também fazia o papel de vitrinista. Tínhamos três vitrines: duas pequenas na entrada e uma grande na lateral. As pequenas eram usadas para lançamentos e eram sempre modificadas quase que semanalmente. Lembro-me de um livro muito famoso que chegou a causar alvoroço de tanto que se vendeu: "O Retrato", o terceiro e último livro da trilogia do “Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, trilogia que com o decorrer dos anos, mesmo agora depois de tantos anos, torno a lê-lo de tão excitante leitura para mim. Mas vamos falar do assunto que mais me apaixona, que é o Dr. Guilherme de Almeida.

No ano de 1952, se não me engano, ele fez uma tradução de uma poesia que era de um poeta nascido na Índia, mas que tinha a nacionalidade britânica, pois seu pai me parece que era diplomático inglês e que vivia sendo enviado a diversos países, como é a vida dos diplomáticos. Então ele nasceu na Índia, mas foi registrado como britânico. Esse autor, dizem os historiadores, que a poesia que ele compôs não influiu a que ele seguisse o que pregava no seu conteúdo, e que se envolveu, por questões de heranças, em longos processos judiciais. Seu nome era Rudyard Kipling e vocês logo irão entender ao que estou me referindo agora.

A poesia famosa só tem duas letras como título em inglês "If" e "Se", em português. Como eu era vitrinista, já naquela época tive o imenso prazer de fazer essa vitrine expondo a poesia “Se”, que em caligrafia espetacularmente artística, foi impressa em diversos tamanhos que variavam desde um cartão-postal até o tamanho 40 x 30 que era o maior. Eu fiquei tão encantado com o conteúdo dessa poesia que não demorou muito para que eu a decorasse e depois disso a adorasse ao ponto de fazer misérias com minha mente (mente jovem e vazia em que aprendíamos com muita facilidade).

Chegava a responder quando era perguntado qualquer sentença de cor e salteado, de qualquer verso, que eram quatro com oito sentenças cada um e, em questão de segundos, nunca errava a resposta. Como tinha a poesia do tamanho do cartão-postal, acabei ganhando do Sr. Arnaldo o maior 40 x 30, pois ele se encantava com a facilidade nas minhas respostas. Neste momento em que escrevo esta crônica, depois de mais de 60 anos, ela está bem na minha frente, logicamente em um quadro protegida por um vidro e por todos estes anos foi sempre a meta que segui, e ela chegou a ser minha mantra. Tenho a poesia completa também em inglês. Mas o Dr. Guilherme fez um trabalho tão espetacular na tradução que supera o original do Rudyard, o autor. O trabalho era do letrista, um artista gótico que eu conhecia muito bem, o Calixtro, com o nome artístico de "Chagury", também grandioso. Para quem conhece essa obra de arte, sabe do que estou falando e pode comprovar a veracidade do fato.

Lembro-me de um dia, em uma das visitas do Dr. Guilherme, o Sr. Arnaldo fez com que eu fizesse algumas demonstrações da minha habilidade em lhe mostrar como eu dominava os versos. O poeta limitou-se a sorrir e, batendo nas minhas costas, disse: muito bom meu filho… Muito bom. E isso foi um dos maiores presentes que ganhei nos meus tempos naquela livraria. Agora, como não poderia deixar de ser, quero presenteá-los com essa poesia, pena que não posso, por questão do tamanho da poesia, escrever também a original em inglês para vocês verem como tenho razão dando mais ênfase à tradução do Dr. Guilherme de Almeida. Que em paz descanse.

Se

“Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar — sem que a isso só te atires;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!”

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