Ângela Boneca

Era uma das mais belas mulheres do bas-fond paulistano. Loira, alta, com sorriso permanente e muito educada. Com seus trinta e poucos anos, mas aparentando ter bem menos, ela encantava a todos por sua beleza. Porém, causava um certo desencanto ao saber tratar-se uma mulher de vida fácil, como se dizia naquela época (1962). Ninguém poderia imaginar tratar-se de uma prostituta, a não ser os freqüentadores do chamado "quadrilátero do pecado" ou seu cliente preferencial. Ângela ia sempre ao restaurante dançante (Atlântico) onde além de fazer suas refeições, também dançava, como muitas outras mulheres, que ali estivessem dançando com maridos, ou namorados. Mesmo estando sozinha, ela era abordada como uma mulher que estava simplesmente desacompanhada. Mal começava a dançar recebia a famosa cantada. Quando declarava sua atividade causava espanto tal era sua meiguice, educação e maneira de tratar quem a procurava. Ângela Boneca, era uma prostituta que não tinha protetor, o chamado cafetão, que cobrava uma taxa com a desculpa de proteção a inoportunos que viessem explorá-la. Ângela sempre foi autônoma, preservava sua individualidade e esta autonomia lhe dava liberdade para ter um amigo como confidente e momentos de relax longe do trabalho diário, onde tinha que agüentar seres de diferentes personalidades, temperamentos, e agressividade.
Quem teve a felicidade de ser esse amigo e confidente dela foi o Barbosa, um escriturário boa pinta sempre bem vestido que deve tê-la conhecido no restaurante Atlântico, porque ele não era dado a "michês", mesmo porque com todo aquele potencial fisionômico, não necessitava desse expediente. Teve início então uma longa amizade. Ambos de fino trato e com educação similar, levavam uma vida que causava inveja a muita gente, notadamente aos homens. O fato de ela ser uma prostituta nada teve a ver com o relacionamento deles. Barbosa pouco se importava com isso. Mas Ângela era categórica: "Vou largar essa vida maldita, assim que fizer o meu pé de meia”. Estava empolgada com Barbosa por ele ser compreensivo, e não ter o menor constrangimento em estar com ela em qualquer lugar, mesmo sendo um homem casado, morador do Itaim Bibi, e ser filho de um dos homens mais influentes do bairro, cujo nome preservo. Um dos muitos clientes de Ângela foi o Marcos. Um jovem sem muita experiência sexual que se empolgou e achou que tinha encontrado a mulher de sua vida. Ficou apaixonado e a pediu em casamento. Ela recusou, e tentou de todas as formas demovê-lo dessa idéia. Fez ele ver a diferença de ambos. Era mais velha, tinha uma historia que jamais poderia esconder. Sem contar a diferença social. Ele filho de uma família milionária (fazendeiros de Araraquara) e ela uma simples prostituta. Um dia fatalmente a verdade viria à tona. Sem contar que ela tinha um amante de quem gostava muito. Barbosa veio a saber do interesse do rapaz, mas não se meteu no caso. Sabia que ela tirava de letra. Quantos já não tinham feito tal pedido, pensava ele. Um dia Marcos apareceu para seu tradicional programa sexual. Naquele dia Barbosa também foi lá para pegar um documento que tinha deixado na noite anterior. Quando Barbosa adentrava o prédio, cruza com Marcos no corredor. Na passagem diz: Vai lá em cima, acabei de matar o seu amor. Barbosa corre ao apartamento e ainda a vê com vida. Ela nos braços do seu companheiro, teve apenas um sorriso triste e dolorido, antes de morrer.