Quando eu estudava na escola Roberto Simonsen (SENAI), Rua Monsenhor de Andrade, esquina Rua Assumpção, no bairro do Brás, ia de ônibus até o Vale do Anhangabaú, depois a pé até a Praça da Sé, indo pela galeria Prestes Maia, antes passando pela estatua de Vérdi no Anhangabaú. (Será que a estatua ainda está lá?).<br><br>Saindo da galeria, entrava na Praça do Patriarca, Rua Direita, Praça da Sé e Praça Clovis, até a canaleta do bonde que me deixava na Rua do Gasômetro, depois de passar pela Avenida Rangel Pestana e entrar na Rua Vasco da Gama.<br><br>Para ir à escola, a despesa era o dinheiro da condução e almoço, que tinha o ticket subsidiado pelo Sesi, que fornecia a comida. Digamos que era de 50% de desconto.<br><br>Com o tempo, economizei o dinheiro da comida, porque quem ajudava a servir os alunos comia de graça. Já tinha um dinheiro para comprar figurinhas das balas futebol, que tinha na loja A Americana, na Rua do Gasômetro, bem perto da escola.<br><br>Um dia gastei o dinheiro da condução porque me excedi na compra das balas futebol. Então tive de ir a pé até o Anhangabaú para pegar o 152, Vila Olímpia. Vim pela Rua Assumpção até o Parque Dom Pedro, passando pela Assembléia Legislativa, entrando pela zona cerealista, passando pela Praça Fernando Prestes, entrava no Mercado Municipal, depois pela Rua Paula Souza e 25 de março, Cavaleiro Basilio Jafet e pegar a ladeira Porto Geral até Rua Boa Vista, passar pela Rua São Bento e depois Libero Badaró, descer as escadas beirando o prédio da antiga Câmara Municipal, que ficava bem em frente ao ponto final do ônibus Vila Olímpia, no Anhangabaú.<br><br>Andar a pé para mim não era problema. Acho que eu me encantava tanto com a cidade de São Paulo que nem percebia o quanto eu andava, e nem me cansava. <br><br>Quando meu pai morreu (1962) tive de resolver toda a papelada (documentação) para passar a pensão para o nome de minha mãe. Essa questão de aposentadoria se resolvia na Rua Conde de Sarzedas, que a nossa vizinha dona Izaura, que também ia lá todo mês receber, dizia que tinha ido na Rua Conde de Sarjeta.<br> <br>Era uma tremenda burocracia. Muita viúva tinha a mesma missão para receber o beneficio, deixado pelo marido. Homem, para receber o beneficio deixado pela mulher, nenhum. Também mulher casada não trabalhava naquela época.<br><br>Era um tal de voltar amanhã ou dias depois. Eram praticamente as mesmas pessoas, pois quem conseguia resolver seu problema era substituído por outras com o mesmo problema a resolver. Muita história era contada por quem ficava horas na fila. A maioria das mulheres chorosas, pela perda do marido.<br><br>Porém, vi uma mulher que não sentiu saudade nenhuma do companheiro. Pelo contrário, falava com todas as letras que aquele filho da p… já tinha ido muito tarde. Só enchia o saco. E não me engano, era um bebacho. Pelo menos uma coisa de bom ele me deu, sua aposentadoria que não era pouca, dizia ela morrendo de rir.<br><br>Ao lado do IAPI (Instituto Aposentadoria e Pensão dos Industriários) tinha uma igreja de crente fundada pelo Davi Miranda, um bandido que, depois que saiu da penitenciária, virou santo e montou uma igreja que deu certo e ele ganhou muito dinheiro graças à fé dos seus seguidores. Segundo línguas, foi por causa do IAPI, e a fila de pessoas, que sofriam duplamente pela perda do seu ente querido, e a fila que tinha de suportar por várias vezes pela falta de um documento. Cada vez que a gente lá tinha um documento que não tinha sido lembrado pelo barnabé que estava no guichê, e que secamente dizia, volta amanhã ou depois, dava suporte para que a benção do pastor fazia crer certas pessoas, que Deus estava por perto, e nem se importava que do pouco que ia receber tinha que dar dez por cento a tal igreja.<br><br>Quando resolvi o problema da minha mãe, coisa que durou quase dois meses, senti falta daquelas conversas, que hoje são histórias de um passado já distante.<br><br>Aquela andança foi a preliminar das rondas das calçadas, coisa que fazia diariamente, depois do jantar, e ia para a rua à procura de aventuras. Andava quilômetros a pé.<br><br>Ia da Vila Olímpia até a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, saindo de onde eu morava, paralelo ao córrego da Traição, Rua Ponta Delgada, Cardoso de Mello, Nova Cidade, Casa do Ator, até a Avenida Santo Amaro, que terminava no largo da Maná, que hoje é Praça Don Gastão Liberal Pinto, virando a Brigadeiro, indo até a Rua Jundiaí, em frente ao Ginásio do Ibirapuera.<br><br>Isso anos seguidos, até que o centro da cidade me chamou para me tornar o andarilho da Paulicéia.<br><br>e-mail do autor: [email protected]