Com quatro para cinco anos de idade, conheci Anastácio, homem apresentando nanismo, com altura próxima a um metro, que veio ao mundo, em decorrência de algum problema genético, sem os membros superiores.
Em toda sua vivência, ocorrida no bairro do Itaim Bibi, sempre se empenhou em se igualar às pessoas de constituição físicas normais. Sem as mãos e os braços, fez dos pés um instrumento poderoso para produzir habilidades incríveis.
Trajava-se sempre com o mesmo tipo de indumentária confeccionada especialmente às suas comodidades. Era um macacão em tecido consistente, semelhante aos usados por trabalhadores operários, com um bolso confortável na altura do peito ligeiramente a sua esquerda.
Lembro de quando ele passava em frente à minha residência da época (Rua Joaquim Floriano, próximo ao número 200) e eu lhe perguntava: "’Seo’ Anastácio, que horas são?”. Ele educadamente com o pé tirava um relógio do bolso preso a uma pequena corrente e satisfazia feliz a curiosidade e a ingenuidade de uma criança inocente.
Como pessoas fisicamente normais, Anastácio também fumava. Improvisando artimanhas, usando os pés, a boca e um lápis com ponta fina que espetava no cigarro, talvez em devaneios, fumava na tentativa de atenuar a grande mágoa que tinha dentro de si, mas que jamais deixou transparecer.
Em momentos de tranquilidade e para inteirar-se dos assuntos do cotidiano, ele também lia jornais, folheando com os pés e com eficaz habilidade.
Porém, a mais sublime atitude do Anastácio era o fato de, apesar do infortúnio das ausências das mãos e dos braços, ele também trabalhava! Em uma cadeira improvisada às exigências do seu trabalho, composta ainda por um estrado de madeira (tablado) construído cerca de 25 cm do chão e sob ele uma gaveta, com os pés fazia o jogo do bicho, que naquela época não era proibido.
Sem dificuldades, colocava papel carbono no bloquinho do jogo, preenchia com clareza, destacava a via do cliente, recebia e fazia o troco, quando havia. Enfim, sempre tentou com muita perseverança proceder como pessoas sem qualquer problema físico.
Seu exemplo seguramente foi seguido por outros "símbolos da perseverança", porém, seguramente também, há alguns com infortunado destino que não conseguem, por mais que tentem, encontrar caminhos para vencer as adversidades. A esses, finalizando esta história, deixo a seguinte mensagem: "Se o seu coração está batendo… Sorria, você está vivo!”.
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