Amigos da Vila Olímpia

Final dos anos 60, tinha na Vila Olímpia uma turma de mais de 40 adolescentes, um pior do que o outro, sempre aprontando das suas, porém sem qualquer maldade ou objetivo de prejudicar as pessoas.
Como todos os adolescentes, alguns eram mais extrovertidos outros mais introvertidos, porém sempre com brincadeiras saudáveis, sempre colocando apelidos uns nos outros e assim por diante, enfim, fazendo uma bagunça geral.
Dentre esses amigos, tínhamos os que contavam com uma situação financeira melhor que outros, porém nunca houve qualquer discriminação.
Eu, especialmente, mantenho bons amigos da época, tais como o Liquinha, o Tadeu, o Paulinho Mineiro, o Paulinho Mendigo, o Pingüim (meu primo), o Magôo, o Go, o Lincoln, o Mita, entre outros.
Dentre muitas histórias gostaria de narrar ao menos duas, que são hilárias e que envolveram o meu amigo Liquinha, o Paulinho Mineiro, eu e o Paulinho Mendigo.
O Liquinha, sempre muito malandro, com seus longos cabelos e com a franja caída na testa (tinha certeza que era muito mais bonito que o Ronnie Von), sempre jogando a cabeça para trás com o objetivo de tirar a franja do cabelo da testa, tinha um condição financeira melhor que eu e os dois Paulinhos.
Certo sábado, mais ou menos às 22h, na maior cara de pau, o Liquinha nos convida para passearmos em Santos, pois seu irmão havia emprestado o seu carro, último tipo (Aero Willis, praticamente zero km).
Detalhe: não sabemos por que, para tirar o carro da garagem, o Liquinha não ligou o mesmo, fazendo com que este, apenas desbrecado, com um leve empurrão deixasse a garagem que ficava em um aclive e fosse parar no meio da rua, onde finalmente ligou o carro e dirigiu-se até a esquina da Rua Baluarte, onde estávamos esperando para entrarmos no carro e seguirmos para a cidade de Santos.
Por volta das 24h, já na cidade de Santos, nem imagino o lugar, todos nós em plena farra dentro do carro, deparamos com 3 lindas garotas, que nos chamaram a atenção, e que atenção.
Como o mais velho ali tinha no máximo 18 anos, eu, o mais novo com meus 16 anos, estávamos todos loucos para gastarmos todas nossas energias, mas sem sabermos como chegar até essas “lindas garotas”, deixamos que o “dono” do carro às convidasse para um passeio.
Mas tínhamos um problema, estávamos em 4 e elas em 3. E aí, depois de muita discussão, sobrou para o Paulinho Mendigo, que deveria ficar em plena rua, nos aguardando, até retornarmos do passeio.
Passeio este que não chegou a ser tão longo, pois a menos de 400 metros de distância do ponto de partida e local em que deixamos o Paulino Mendigo, o carro para e começa a maior briga.
Ao perceber que nos tínhamos parado o carro e começado uma briga com as “lindas garotas”, o Paulinho Mendigo foi correndo ao nosso encontro para nos ajudar.
Bela ajuda, o Paulinho Mendigo começou a rolar no chão de tanto rir, pois descobriu a razão da briga.
As “lindas garotas” nada mais eram que três travestis.
É, Liquinha, nesse dia deu para aprender, antes de ter um bom carro para paquera é melhor ter bons olhos para não comprar gato por lebre.
Essa é uma das poucas histórias que vivemos em nossa época de adolescente.
Espero que nossos amigos contem as belas passagens que tivemos em nossas vidas de adolescentes, como por exemplo, nossos acampamentos em Iporanga, nossas idas e vindas aos bailes do Vila Sofia, as Domingueiras no Círculo Militar, aos nossos finais de semana no Santa Paula Iate Club, nos bailes de carnaval no São Paulo, no Banespa e especialmente no Clube de Campo São Bernardo, onde até hoje não sei porque ficamos detidos na delegacia, após uma grande confusão do Wilsinho com um policial que tinha em seu capacete as letras FP, tendo feito um comentário sobre essas letras.
Lembrarmos dos bons bailes de formatura que aconteciam no Clube Pinheiros, o que me faz recordar de um baile, especialmente este, pois havia necessidade de usarmos traje a rigor. A moda era uma gravata tipo borboleta, porém não tínhamos, e lógico, com a imaginação fértil que tínhamos, o que fazíamos?
Pegávamos uma gravata normal, passávamos em volta do pescoço, como se fosse uma fita, dávamos um nó e conseguíamos fazer passar por gravata borboleta.
Nesse dia, quando estávamos entrando no Clube Pinheiros, para um baile de formatura, onde o traje a rigor era obrigatório, e com uma rigorosa fiscalização, após passarmos por esta, uma fiscal avisa o nosso amigo, sempre ele, Liquinha: “moço, o rabo da sua borboleta esta aparecendo”, ou seja, o infeliz esqueceu de enfiar o resto da gravata que ficava à nossas costas para dentro das calças, e quando andava ficava parecendo um rabo.
Das aventuras da escuderia Pitomba, onde até hoje o Paulinho Mineiro está cobrando a devolução da tartaruga que nos emprestou para cumprirmos uma tarefa… (O Liquinha e o Pingüim eram os coordenadores).
Bons tempos, sabemos que não voltam mais, mas relembrarmos destes nos torna cada vez mais felizes, felizes por termos tido a oportunidade de vivermos uma adolescência mais tranqüila, mais segura e com muito mais respeito à vida e com todos os semelhantes.
Das nossas conversas e passatempos que tínhamos na esquina da Vahia de Abreu com a Avenida Santo Amaro, onde o inesquecível Paulo Jornaleiro lá ficava fumando seu enorme charuto.
Da esquina da Rua Baluarte com a Rua Vahia de Abreu, onde vivíamos e convivíamos com enorme alegria.
Não tínhamos medo de assalto, assassinatos e outras barbáries que existem nos tempos atuais, pois se ocorresse uma briga, o máximo que acontecia era termos pequenos cortes e feridas, mas que em menos de uma semana saravam.
Bons tempos que nos trazem saudades.

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