Não sei quantos de vocês sabem a respeito da revista “O Cruzeiro” que, na época, era uma espécie de Fantástico. O famoso personagem o "Amigo da Onça" foi criado pelo cartunista pernambucano Péricles de Andrade Maranhão em 1943. Péricles e suas charges foram o carro chefe da revista “O Cruzeiro”.
Satírico, irônico e crítico de costumes, o "Amigo da Onça" aparece em diversas ocasiões desmascarando seus interlocutores ou colocando-os nas mais embaraçosas situações. A frase: “Mas afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?” Ficou famosa nas edições da revista. Apesar da nossa vida não ser muita farta, os anos 60 foram incomparáveis. Papai tinha um Ford 1936, V-8, 60 HP, Sedan, duas portas e de cor preta como “sói” acontecer. Era um carro ultrapassado, mas ele não queria trocá-lo, pois achava que era um clássico. Afinal, era o nosso meio de transporte particular e deveríamos nos contentar com ele. Seus assentos, forrados com a casimira original, ainda estavam impecáveis. Apesar de velho e cansado, o fordéco caminhava bem, mas, nem sempre. Era temperamental. Era difícil prever o seu comportamento. O carro tinha um crônico defeito na ignição que papai nunca pode estirpar aquele pequeno “câncer mecânico”.
Isto posto, nunca se poderia adivinhar quando ele deixaria de funcionar no meio do trânsito! Parava simplemente. Empacava como um jumento. Portanto, com esse tipo de comportamento, nós o apelidamos de "Empaca". O apelido pegou forte e todos meus amigos sabiam a respeito do Empaca. Até mamãe atribuia ao carro chamando-o de Empaca.
Havia um baile formatura no Clube Pinheiros. Reunimos a "tropinha" constituída de rapazes e moças, todos amigos quase da mesma idade. Eramos nove. Três garotas e seis rapazes. Todos moradores da região de Santana. Baile de formatura era o que poderia existir de melhor, pois dançar significava abraçar as garotas. Portanto, o evento era imperdível. Porém, tinhamos apenas dois convites. O pai de uma das garotas, por coincidência, tinha uma gráfica e, por mais forte concidência ainda, sua firma era encarregada de imprimir os convites para o clube. Assim sendo, convites não foram o problema. Todos bem arrumados. Os garotos dentro dos seus "smokings" e sapatos lustrosos. As garotas, perfumadas, e bem arrumadas. Todos preparados para embarcarem no empaca, é claro. Nós, rapazes, fazíamos concorrência a um bando de pinguins, na sua aparência.
A nossa sorte era que éramos “esquios” e sem gordura, longe de se afigurar do que somos hoje. Desta forma, começamos a nos empacotar dentro do Empaca. Para a acomodação no banco traseiro usamos o sistema "sanfona". As três garotas, sentadas no banco da frente, uma no colo da outra. Eu ao volante. Uma posição até mesmo confortável, mas de grande responsabilidade em manter o empaca funcionando. Todos alegres, sorridentes, entusiasmados afoitos para chegar ao clube.
Parei em um cruzamento a espera do sinal verde. O Empaca imediatamente imitou-me: parou, empacou. Dei na partida e nada. Os rapazes já sabiam e pularam fora para empurrar. Aos socos, o Empaca resolveu funcionar, mas o carro deveria seguir andando, do contrário, iria parar novamente. Quatro dos rapazes, usando-se do estribo do carro conseguiram entrar, mas um deles ainda continuava do lado de fora correndo, tentando alcançar a mesma velocidade do impaca. Com a porta aberta, nós todos gritavamos para que ele pulasse para dentro.
Finalmente, com grande esforço, ele jogou-se para dentro do carro. Foi só gargalhada. Alguns se queixavam de estarem amarrotados. Continuamos em direção ao Clube. Estávamos perto. A nossa sorte era que, naquele tempo, o trânsito de São Paulo era outro: muito mais calmo. Quatro quadras antes de chegar, o Empaca resolveu empacar. O drama se repetiu ainda, por incrível que pareça, por mais duas vezes antes de chegarmos. Foi quando um dos amigos disse em voz alta e plena: “Mas afinal, este carro é nosso amigo ou amigo da onça?” O baile foi ótimo ao som do Sylvio Mazzuca. Alguém poderá me perguntar como foi a nossa volta às quatro da manhã. O Empaca comportou-se como gente grande: não empacou, sequer, nenhuma vez.
Para concluir, Péricles morreu de forma trágica. Na noite de 31 de dezembro de 1961, ele escreveu dois bilhetes reclamando da solidão, fechou todas as portas do seu apartamento e ligou o gás. Antes, do último gesto do criador do "amigo da onça" foi colocar um aviso na porta, à mão, "não risquem fósforos".
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