Março de 1948. A Segunda Guerra havia acabado. Crise falta de trabalho, carestia… Palavras que eu ouvia, mas não compreendia…
O caminhão com a mudança partiu na madrugada do domingo, carregando, não muitas coisas, mas tudo o que tínhamos… Íamos para o desconhecido mundo de São Paulo.
Minha mãe fica em casa, para arrumar as malas, ou melhor, a mala e para cuidar do meu irmão mais novo. Meu pai me leva até o sítio onde moravam meus avós para, acredito, se despedir e tranqüilizá-los.
Voltávamos, quando a penumbra já dava contornos às montanhas que circundavam a paisagem… E ao caminho, em uma subida, tinha um cemitério municipal…
De repente, de dentro do muro caiado de branco, uma bola esverdeada de fogo se ergueu, provocando um ruído estranho… Permanecendo algumas frações de segundo no ar e velozmente se perdeu na escuridão do vale.
O susto foi terrível e trôpego, procurei refúgio junto a meu pai.
Ele tomando-me pela mão, sentou-se ao chão no lado da estrada e calmamente disse-me:
– Não tenha medo; não é assombração não… É apenas um fogo-fátuo.
E com palavras tranqüilas me explicou, a sua maneira, se tratar de gases que se inflamavam de forma espontânea, da "carnera" (local onde eram colocados os ossos, daqueles exumados… hoje sei). Com as mãos dadas seguimos para a nossa última noite, antes de enfrentar a desconhecida São Paulo.
A confiança em seu comportamento e palavras até hoje me comovem…, mas uma coisa ainda me causa estranheza. "Aquele simples pedreiro, mal letrado, criado no meio rural impregnado de superstições e crenças, onde havia obtido tal conhecimento". Nunca mais acreditei em superstições ou assombrações… Com muita dificuldade, dedicação e trabalho conseguimos de São Paulo a retribuição almejada.
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