Alma de paulista

Num momento importantíssimo da vida conheci um texto do saudoso Carlos Drummond de Andrade intitulado "Almas perfumadas", de refinada beleza, mansidão e leveza que faz qualquer pessoa se sentir muito feliz e apaixonada pela existência. E percebi o quanto o paulista tem daquela alma encantada e pura descrita pelo poeta.<br><br>Eu diria que o paulista tem a doçura e o encanto de superar as situações extremas que a vida oferece. Depois que passa a horrível sensação de medo e de angústia consegue continuar a caminhada, sentindo que, apesar de tudo, venceu! E passa a melhor compreender os bons momentos da vida e arruma algum tempo para caminhar no Ibirapuera ou mesmo na Praça Vinícius de Moraes e em outras praças das centenas de outros bairros, respirando e dando um jeito de ouvir o canto de algum pássaro que teima em não morrer ou sair da paulicéia.<br><br>O paulista tem na alma o time de futebol de forma apaixonada e torce e grita e canta e defende como se tudo aquilo não fosse tão passageiro.<br>Sai da sua boca, convicta, alguma coisa como "quando eu me aposentar, vou embora daqui, ter uma pousada na praia, uma casa no campo, curtir a vida, fazer o que eu ainda não pude fazer", mas São Paulo não sai de dentro do paulista, não importa por aonde ele vá. A cidade se impõe no coração mesmo que não se queira ou não se pense nisso.<br><br>A alma paulistana é aquela que luta com todas as forças todos os dias, todas as horas, até em dia santo e feriado, mas consegue arrumar um tempo para os doces sentimentos, visitar o passado, falar sobre ele, inventar um jeito de falar dessas saudades. Simplesmente deixar recordar, deixar tudo passar de novo pelo coração.<br><br>E ainda tem tempo para ser solidário, se comover, rapidamente tirar alguma coisa de dentro de casa e enviar para os flagelados não importa de onde e quando. Tem gente que ainda consegue um jeito de fazer cafuné com alguma calma. Ler um livrinho qualquer e brincar com a criança da casa contando alguma história, que será inesquecível. Ainda tem algodão doce. Mas algodão doce na alma quando, mesmo com as pernas doendo, o corpo todo doendo, encarangado, inventa alguma coisa boa apenas pelo enorme prazer da partilha.<br><br>Tem o paulista que adora andar pelas ruas de paralelepípedo depois de uma rápida chuva e vê nisso poesia e encantamento. Tem o paulista que inventa de dividir sentimentos, tempo e até o próprio ouvido para intermináveis sessões de desabafo. E consegue tempo para virar voluntário, mesmo de madrugada, e voltar para casa sentindo que, de alguma forma, o mundo melhorou com aquela ação. Tem aquele que ainda consegue dar espaço para o outro atravessar a rua, aquele que conversa um pouco no mercadinho do bairro.<br><br>Tem aquele que consegue um tempo para contemplar a catedral bem na hora em que o relógio chama austero para a entrada no metrô da Sé.<br>Tem o outro paulista que consegue uma entrada rápida na Igreja São Bento na hora do almoço só para ouvir um pouco, só um pouquinho, do canto Gregoriano. Depois corre e entra, suando, no local de trabalho e se afunda em documentos… Mas teve um tempinho para apenas sentir.<br><br>Tem aquele que se orgulha do mercadão, dos museus e da vastidão cultural, estufa o peito e convida algum parente para visitar a cidade – apenas nas férias – e tem aquele que enxerga violência em toda parte e fala dela, mas mesmo assim consegue limpar as lentes da alma para ver e vibrar pelas coisas belas, mesmo as do passado.<br><br>Tem aquele que gosta do pastel da feira, e de falar alguma coisa com o japonês, não importa o quê. E vê poesia no pastel. Quem disse que o pastel de feira de São Paulo não é frito na poesia de tantas lutas, sonhos, decepções e fantasias? E a pizza do Bexiga, do Brás e tantas outras, será que não foram assadas em fornos cheios de magia e esperança? Será que a farinha, os ovos, o óleo, o sal não foram amassados com a força da coragem da mão imigrante? Massa feita com sabor de vida e de capricho para a construção de um novo tempo… O pão italiano foi feito para alimentar a alma. Foi feito para a partilha numa mesa com toalha xadrez de verde e branco ou de vermelho e branco. Será que alguém pensou que o peixe do mercado não veio de um mar que chora por não banhar a capital?<br><br>Alguém é capaz de imaginar que o nordestino que chegou e que ainda chega não é aquele movido pela busca apenas de trabalho e de comida, mas um faminto pelo novo? Será que alguém acredita que os estrangeiros do século XX que chegaram à antiga terra da garoa vieram somente fugidos de guerra ou vieram à procura da arte do encontro?<br><br>O paulista tem na alma uma memória estrangeira, cheia de sentimentos e sonhos, que veio de longe, atravessou mares, mas veio para ficar, criar raiz, transformar e se encantar. Fazer história e deixar para os filhos um amor distante como doce e instigante herança.<br><br><br>E-mail: [email protected]