Em 1958, com meus 19 anos, eu soube que muitos colegas de infância jogavam futebol no pátio da igreja do Divino Salvador (Rua Casa do Ator) Vila Olímpia. Ai entrei para a Congregação Mariana dessa igreja. Na verdade era mais para jogar futebol, e seu Armando Cavalieri, o instrutor, que conhecia de velha data já foi dizendo:
-“Se você veio aqui só para jogar futebol é melhor sair logo no segundo dia. A congregação tem regras e se você deve se adequar a elas”.
A obrigação era assistir missas nos domingos de festas e guardas. Fora isso tinha também reuniões, após a missa dominical às 7h. Essas reuniões não era todo domingo, mas eu e outros ficávamos com o saco cheio, pois tínhamos compromisso com o futebol que na Várzea o melhor do futebol é pela manhã.
Como congregado tínhamos algumas obrigações, que não eram “obrigatórias”, nas missas da manhã tinha os coroinhas que ajudavam o padre levando os apetrechos necessários, Taça, vidros contendo água e vinho e depois a toalha para ele enxugar "os Beiço". Já na missa da tarde essa incumbência cabia aos congregados, e eu gostava de ser um “coroão”. Não que eu fosse um “Caxias da igreja” ou do padre, mas a gente ficava exposta ao publico que assistia a missa, e que, não podia ou não queria ir às missas da manhã ia à tarde.
E colocando o microfone para o padre fazer o sermão e depois o retirando dava uma olhada para o publico que assistia a missa, e via cada mulher que enchia os olhos de "satisfação" para não dizer outra coisa. E para falar a verdade sempre sobrava alguma para um bom papo, e quando tinha quermesse então, a festa era muito boa.
Outra obrigação era fazer adoração noturna na igreja de Santa Ifigênia no Largo que tinha o mesmo nome da igreja, no centro da cidade. Nosso dia era o 31, e como não era todo mês que tinha esse dia também marcava outro para o dia 14, mas não eram todos que iam ao meio do mês. O dia 31 era o que mais os congregados gostavam e nessa turma estava eu. Essa obrigatoriedade para todas as igrejas da Cúria metropolitana era necessária para o sacrário não ficar só, segundo os dirigentes da igreja.
Eu ia sempre no ultimo dia do ano. Chegávamos lá pelas 11h30 e antes de entrar para os quartos tinha um bom café com pão e manteiga. Penso que muitos não jantavam nesse dia, porque comiam tanto que ficavam amaciando a barriga. Quando era dia 31 de dezembro a gente ficava na janela esperando os corredores da São Silvestre. Cada turma com mais ou menos 20 rapazes se distribuíam para cada hora, saindo uma entrava outra. Eu ia sempre ao horário das 2h ou 3h.
E como não podia deixar de acontecer, muitas brincadeiras de mau gosto aconteciam, como dar um nó cego nas meias, ou na barra da calça. Em plena madrugada com muitos ainda "dormingando" demoravam em desatar os nós. Era um monte de palavrões na "casa de Deus”. Na hora da solenidade religiosa alem da reza havia uma série de cânticos, no livreto tinha muitos cânticos, mas a gente gostava mesmo era do, "Queremos Deus, homens ingratos…" Um dia, ou melhor, uma madrugada o cântico ia indo muito bem, mas teve alguém (sempre tem alguém) que deu uma tremenda desafinada, que não teve como aguentar, foi um riso geral, que foi logo sufocado com a mão na boca.
Mas o bom mesmo da congregação era o futebol, apesar de estarmos com 17-18, anos por ai éramos todos raquíticos, e como jogávamos futebol na rua descalços estávamos bastante entrosados e quando jogávamos contra times de adultos o baile era fatal, e como tomávamos botinadas, e xingamentos.
Minha passagem pela congregação Mariana da igreja do Divino Salvador, foi até 1961, três anos de religiosidade e pecado.
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