Sempre tive sérias dúvidas sobre religiosidade. Apesar de estudar em colégio salesiano, não fiz a primeira comunhão. Em vias de estudar o catecismo como preparatório do evento, o Padre Martin, que me descobrira na fila do Ginásio Dom Bosco (Instituto Salesiano São Francisco) simulando as orações com mudos movimentos labiais, fora transferido do colégio para uma paróquia no sul do país, adiando minha participação na recepção da eucaristia.
Eu tinha somente um certo fascínio por anjo da guarda. Lera sobre querubins guardadores dos registros sagrados que, além de manterem ajuda para que o plano divino fosse cumprido, eram guardiões das luzes e estrelas.
Nesses almanaques de finais de ano, provavelmente o "Fontoura", conhecera meu anjo protetor, Hahahiah, atuante contra adversários e que se manifestava em sonhos e intuição repentina. No íntimo das reflexões, achava aquilo fantasioso demais, pois não existiam anjos, pensava.
Os anos passaram-se, casei-me sem ter feito a primeira comunhão. Falava nisso com certo orgulho, para provar que não fora excomungado pelo fato e que nada de grave me aconteceria.
Recordava as histórias de minha avó quando criança, sobre nossos amigos invisíveis que brincavam e conversavam com a gente. Procurava criar esses pensamentos e idéias na minha tela mental, com receio de parecer ridículo ou falso místico. “Anjos da guarda, onde já se viu isso?”, perguntava-me.
Certa noite, fui apanhar minha esposa na saída de reunião religiosa na igreja. Ela era católica praticante, e não me importava que ela exercitasse sua crença. Ao retornar, deixei-a junto do meu filho em casa e fui guardar o automóvel no estacionamento, a cem metros de minha habitação, isso na Rua Jaboticabal, na Mooca, pois essa residência não tinha garagem.
No retorno, a pé, segurando minha carteira, notei algo estranho do outro lado da rua. Isso na Rua Terezina (quem conhece o Alto da Mooca sabe do que estou falando).
-Vamu lá! Vamu lá, filho da…!
Uma voz rouca, um grito lascivo, desses que ecoam como que uivando, um sonido insano, fazendo crer haver os autores fumado maconha. Tinham encostado o carro do outro lado da rua, em paredes sem portas ou janelas, denunciando algo estranho.
Pressenti, pensando pra mim: “Serei assaltado!”. Uma estranha sensação tomou conta de meu corpo. Fui envolvido por um torpor, uma calma e paz nunca antes sentida; esbanjava lucidez e percepção. O automóvel deu meia-volta, parou no meio fio, já do lado da calçada onde estava, mas a uns cinqüenta metros de distância. Com a porta semi-aberta, a luz interna do veículo acesa refletiu o vulto do 38 na mão do facínora.
Com toda a calma incorporada, pensei, recordando o grito do bandido, como um instigar à coragem do outro meliante: “Se retorno, eles me assaltam facilmente. Estou a pé, eles de carro. E, se continuo, serei assaltado fatalmente.”.
Tomado de êxtase divino e embebido pela sabedoria, caminhei tranqüilo, tentando vislumbrar o que me aconteceria. Faltando três metros para chegar à porta do veículo, saí em disparada, correndo a uma velocidade descomunal para meus noventa quilos. Não houve tempo para os assaltantes raciocinarem. Fui ágil, ligeiro, rápido, em segundos estava em casa, tocando a campainha com insistência para a esposa abrir a porta.
Sentei-me no sofá, em meu canto costumeiro, sentindo as pernas tremerem, suando frio, agora me dando conta do que de fato acontecera. O anjo guardião Hahahiah se afastara, não havia mais necessidade de me proteger. Naquele momento estava a salvo. Acredite quem quiser.
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